Por André Eduardo Ruschel à Epic Play —

Os Arcades, conhecidos pelos brasileiros como Fliperamas foram uma febre que durou do final dos anos 70 até o início dos anos 2000, dentre os gêneros da época, alguns se destacavam nestas máquinas, como os títulos de luta, corridas e os beat ‘em ups. Final Fight foi um verdadeiro salto de qualidade para os amantes do gênero, uma vez que a famosa placa CPS-1 da Capcom estava sendo usada com maestria, apresentando uma grande qualidade gráfica, sonora e de jogabilidade. Aos que não conhecem este game, mas apreciam seu gênero, fique sabendo que jogá-lo é obrigatório, já que muito dele foi herdado em títulos seguintes da empresa e de suas concorrentes.

O começo da aventura.

Final Fight é um jogo do gênero beat ‘em up, lançado originalmente para arcades no ano 1989, recebeu (e continua) recebendo inúmeras conversões para as mais diversas plataformas, como Super Nintendo, Sega CD e Game Boy Advance. A versão aqui avaliada será a original de arcades.

Curiosidades: Após ser lançado no Japão ao final de 1989, Final Fight recebeu em 1990 o reconhecimento da revista japonesa Gamest, especializada em arcades, o prêmio de melhor jogo do ano. Algo incrível para um período em que esta plataforma tinha os games com melhor qualidade técnica do mercado. Nesta mesma ocasião, o personagem Guy foi nomeado um dos principais personagens dos games, dando-se destaque ao se carisma.

Bastidores de Final Fight

O designer Akira Nishitani

O primeiro título da franquia Street Fighter havia feito um considerável sucesso no ano de 1987, logo uma sequência já havia sido encomendada para que a série se firmasse de vez economicamente no mercado. Ocorreu que, naquele momento, seus criadores estavam com a cabeça em outro lugar, queriam criar um jogo que definitivamente fosse capaz de tomar o lugar de destaque que Double Dragon tinha nos arcades.

Nas palavras do próprio designer de Final Fight, Akira Nishitani: “A Capcom Americana queria que fizéssemos um novo jogo para continuar Street Fighter, enquanto no Japão queríamos um jogo de luta por fases, por causa do sucesso dos beat ‘em ups nos arcades. A concepção de como deveria ser esse jogo surgiu, e, como Street Fighter já estava estabelecido nesta época, eu pensei em usar esse título como uma continuação”.

Avise o prefeito que não são apenas as ruas de Metro City que precisam de uma boa “limpeza”.

Quando a versão do jogo, chamada Street Fighter ’89, foi apresentada ao gerente da Capcom Americana, Brian Duke, a reação não foi muito agradável: “Eu sugeri uma continuação de Street Fighter, mas isso que acabei de jogar é outro jogo, não pode ser chamado de Street Fighter. Se lançarmos esse título com este nome, tudo estará definitivamente perdido”.

O jogo estava muito avançado para que os funcionários da Capcom ignorassem tudo aquilo que havia sido feito e recomeçar do zero uma sequência real de Street Fighter. No lugar disto, resolveram mudar o título do game e terminar aquilo que estava em suas mão. Nem tudo foi ignorado da obra original, pois como muitos de nós sabemos, ambas franquias, Street Fighter e Final Fight, compartilham do mesmo universo.

Curiosidades: Como podemos ver na imagem à esquerda, Final Fight, inicialmente iria se chamar Street Fighter ’89. O projeto estava de tal forma adiantado e definido que até as propagandas estavam prontas. Já na imagem à direita temos o título final já determinado.

Personagens do Jogo

Assim como todo beat ‘em up, Final Fight é um jogo em que enfrentamos muitos inimigos “clones” durante toda aventura, sendo que o nome do personagem mais representa uma classe do que qualquer outra coisa. A seguir irei descrever os três personagens que podem ser selecionáveis e mais seis inimigos, sendo quatro deles comumente encontrados durante as fases e dois chefes.

Selecionáveis

Apesar de três personagens não ser um número impressionante quando comparado com jogos do mesmo gênero lançados posteriormente, este fator era um destaque positivo ao título, principalmente pelo fato que seu objetivo maior era superar Double Dragon, em que havia apenas um “estilo” para ser escolhido.

  1. Mike Haggar: O temido prefeito de Metro City é um ex-campeão de lutas do tipo Wrestling. Nesta época era conhecido como Mike “Macho” Haggar e já podia ser visto no jogo de arcade Slam Master. Sua ambição de acabar de uma vez com o crime em sua cidade acabou ocasionando o sequestro de sua filha. Como personagem, suas características correspondem ao tipo lento e forte;
  2. Guy: Este típico ninja americano com raízes japonesas adquiriu o direito de ser um discípulo do Mestre Zeku na arte Bushin. Após o término de seu treinamento, retorna para sua cidade natal, Metro City, e encontra o local tomado pela gangue de Belger. Movido pelo desejo de justiça, junta-se ao prefeito para que a paz retorne ao local. Como personagem, suas características correspondem ao tipo rápido e fraco;
  3. Cody Travers: Suas especialidades são a briga de rua e o manuseio de facas (AK-47), “sabedorias” que adquiriu por ter vivido desde criança nos subúrbios de Metro City. Considerado temperamental, teve sua namorada Jessica sequestrada e, assim, junta-se ao seu sogro Haggar para, juntos, resgatarem sua amada. Como personagem, suas caraterísticas correspondem ao típico personagem equilibrado, sendo a melhor opção para os estreantes no game.

Curiosidade: Algumas das influências percebidas em Final Fight também estão no filme Estrada de Fogo (1984), com os nomes de alguns personagens, e no fato de Metro City claramente ser baseada em Nova Iorque, já que vemos o World Trade Center e a Estátua da Liberdade em determinados momentos do jogo.

Inimigos

Uma coisa que realmente devemos destacar em Final Fight são os adversários que encontramos durante as fases, todos possuem um carisma pouco visto em jogos do estilo, de forma que grande parte dos chefes e, até mesmo, dos inimigos comuns encontrados, voltaram futuramente, principalmente na franquia Street Fighter. O curioso é que grande parte dos personagens possuem seus nomes inspirados em músicos e bandas da época. Caso você seja fã de um bom rock and roll dos anos 80, certamente vai reconhecer várias referências.

  1. Dug/Simons/Bred/Jake: São os famosos soldados que todo jogo do gênero possuem, sendo que são fáceis de serem derrotados, possuindo baixa quantidade de energia e causando pouco dano com seus ataques. O segredo é não deixar que muitos o cerquem;
  2. Axl/Slash: Inimigos mais fortes que os descritos acima, possuem a habilidade de se defenderem, o que fazem o tempo todo. A dica é fazer abrir suas defesas com pulo seguido de um ataque colocando para baixo, assim como abusar dos agarrões;
  3. Andore/Andore Jr./F.Andore/G.Andore/U.Andore: São os brucutus do jogo, fortes e muito resistentes. Lutar próximo deles é se arriscar bastante, o ideal é enfrentá-los com armas, como a espada, ou com voadoras.

4. Poison/Roxy: Elas (ou eles) são extremamente rápidas e possuem uma voadora capaz de tirar uma boa parcela da vida de nossos personagens caso sejamos atingidos em cheio. Costumam ficar saltando constantemente, o que é bastante irritante. A dica é se livrar dela o quanto antes, aparentemente fica mais perigosa quando se encontram na tela junto de outros personagens;

5. Sodom/Katana: Assim como vários personagens da franquia Final Fight, Sodom apareceu no Street Fighter anos depois. Chefe já bastante forte que encontramos na segunda fase do jogo, além de rápido, possui duas espadas katana capazes de tirar uma boa quantidade de energia quando nos atinge. O ideal nesta batalha é tentar agarrá-lo quando ele fica vulnerável;

6. Abigail: Era até comum em jogos da época encontrarmos durante a campanha algum chefe mais forte que o último, sendo Abigail um destes. Além da enorme resistência, o inimigo possui ataques que retiram grande quantidade de energia, principalmente um soco concentrado. A dica para derrotá-lo é tentar manter os capangas fora de sua luta, mantendo distância enquanto o ataca com voadoras e armas. Ele também apareceu recentemente na franquia Street Fighter e parece que continuou treinando, já que até o Zangief ficou pequeno perto dele.

Curiosidade: Vários personagens de Final Fight tiveram inspirações em pessoas de nosso mundo real. Mike Haggar veio do lutador de luta livre Randy Mr. Macho Man e até mesmo a posição que o personagem comemora com sua filha veio da que Randy fazia segurando sua esposa; Axl claramente veio vocalista da banda Guns N’ Roses, Axl Rose; e Andore foi inspirado no lutador de wrestling francês Andre, O Gigante.

Análise Técnica

O enredo de Final Fight é simples, mas competente. Um novo prefeito, Haggar, assume a administração da corrupta cidade de Metro City com a promessa de limpar as ruas dos inúmeros criminosos que habitavam o local. Após perceber que o incorruptível ex lutador de wrestling não iria facilitar para a vida dos arruaceiros, a gangue Mad Gear sequestra Jéssica (filha de Mike e namorada de Cody) e através de um de seus líderes, Damnd, expõe que caso não houvesse cooperação por parte do governo, Haggar jamais iria ver a filha novamente. Juntos, pai e genro entram em contato com o amigo Guy e todos partem ao resgate de Jessica, visando terminar de vez com a Mad Gear. Aqui começa a campanha de Final Fight.

Neste momento o jogo já começa a elevar sua dificuldade.

A dificuldade de Final Fight é bastante elevada, já na segunda fase nos vemos cercados por um grande número de inimigos e dificilmente conseguimos nos livrar da situação sem receber algum dano, realmente sendo um papa-fichas. É preciso treino e o conhecimento de algumas “manhas” para que algum jogador consiga chegar ao seu final sem gastar toda a mesada.

O fator replay do título não é grande, uma vez que não há múltiplos caminhos para serem conhecidos ou habilidades extras que possam ser descobertas. Ainda assim, vale dizer que a dificuldade elevada que o jogo possui vai fazer com que o jogador demore até virar um mestre com os três personagens disponíveis e conseguir chegar ao seu final sem gastar uma infinidade de créditos.

O segundo chefe já era dureza.

Final Fight possui dois estágios bônus durante sua campanha. O primeiro deles se dá após o termino da segunda fase e trata-se de destruir o carro de Bred, um dos “soldados” da Mad Gear. Após detonarmos com o automóvel surge o infeliz membro da gangue chorando. Já o segundo bônus ocorre após a quinta fase do game e nele devemos quebrar vidros que estão alinhados, acontece que temos que golpear exatamente o seu centro, do contrário o objeto gira, o segredo é se basear nas sombras.

O tempo de campanha é consideravelmente curto, porém dentro do padrão dos games deste gênero de sua época. Após conhecer as melhores formas de vencer os inimigos, um jogador experiente levará em torno de 50 minutos para chegar ao final de Final Fight.

A jogabilidade foi aquela que se popularizou entre os jogos do gênero. Devemos espancar todos inimigos que surgirem na tela, sem distinção se for forte, fraco, policial, mulher ou cadeirante (pois é, anos 80). Nossos personagens possuem golpes básicos, como agarrões, socos, voadeiras e especiais que quando utilizados consomes uma pequena parcela da barra de energia (por esta razão, recomendamos que sejam usados apenas quando estamos cercados e percebemos o dano inevitável). Além disto há uma variedade considerável de armas brancas pelo cenário que podemos utilizar para causar maior dano aos inimigos, infelizmente seu porte impede o desenvolvimento de maiores combos e nosso personagem acaba atacando com menor velocidade.

Tela de game over apelativa botando pressão.

Os gráficos do jogo são simplesmente incríveis para um game de 1989, com sprites grandes, detalhados e uma rica quantidade de animações. O título realmente parecia ser um beat ‘em up feito com o capricho destinado a um jogo de luta. Foi de cair o queixo ter acesso a algo desta qualidade em seu tempo.

A diversão do título é enorme, principalmente para aqueles que estiverem dispostos a terminar com os três personagens disponíveis e jogarem acompanhados de um amigo. Apesar de seu baixo fator replay, tecnicamente o jogo é tão bem feito que certamente chegará o dia em que uma nova partida de Final Fight vai acontecer.

Derrubar 2 inimigos com um golpe era muito bom.

Os efeito sonoros de Final Fight são muito bons, combinando bem com a proposta que o jogo possui e não sendo enjoativos. A trilha sonora do game recebeu muitos elogios na época de seu lançamento e tiveram em sua produção a autoria de sete compositores: Manami Matsumae, Yoshihiro Sakagushi, Harumi Fujita, Junko Tamiya, Yasuaki Fujita, Hiromitsu Takaoka e Yoko Shimomura; estranhamente, apensas Yoshihiro Sakagushi foi creditado no jogo e sob o pseudônimo de Yokishan’s Papa.

Curiosidades: Há muitas curiosidades e polêmicas envolvendo a personagem Poison. A principal se refere a sua sexualidade, já que na época, para evitar transtornos quanto a violência contra a mulher, a Capcom japonesa disse que a personagem na verdade era homem. A Capcom dos EUA, em suas conversões trocou suas imagens pelas dos personagens Billy e Sid. Já atualmente, Akira Nishitani, em uma entrevista, resolveu dizer que a sexualidade de Poison está para interpretação de cada jogador.

Conversões

Final Fight foi um sucesso enorme na época de seu lançamento, assim não era de se estranhar que o título receberia diversas conversões para várias plataformas da época e futuras. Acabei optando por descrever 4 delas que acredito merecerem um pouco mais de destaque, uma vez que foram populares e ajudaram a fazer com a franquia alcançasse a fama que merecia.

  1. Super Nintendo: Certamente a mais popular das conversões citadas aqui também é a mais problemática. O console da Nintendo recebeu seu Final Fight, já em 1990, cheio de cortes quando comparado a versão de arcade, com a ausência de Guy, da fase Industrial e principalmente, sendo incapaz de ser jogado em multiplayer. É fato que o jogo foi lançado no início da vida do console e que ainda haviam limitações de memória para os cartuchos lançados, só que ocorreu posteriormente uma versão atualizada chamada Final Fight Guy, porém, nela apenas retiraram Cody e colocaram Guy, mantendo todos outros problemas, lamentável;
  2. Sharp X68000: O obscuro, mas incrível, computador da Sharp recebeu uma ótima versão do jogo, quase idêntica à original de arcade, sem qualquer tipo de cortes. Alguns japoneses tiveram este privilégio de jogar este grande game em casa pouco tempo depois de seu lançamento nos arcades;

3. Sega CD: Chamado Final Fight CD, a versão para o Sega CD demorou para sair, mas quando chegou foi caprichada. Aproveitando a quantidade de memória disponível na mídia, este Final Fight recebeu uma introdução com vozes digitalizadas, incríveis animações, trilha sonora remixada, além de um inédito modo Time Attack. Sem cortes de conteúdo quando comparado com a original, o jogo só teve uma leve perda gráfica, devido a limitação das cores do Mega Drive. A SEGA ganhou este pequeno round da guerra de consoles, infelizmente só os donos de Sega CD puderam aproveitá-la;

4. Game Boy Advance: Final Fight One chegou ao portátil da Nintendo em 2001 e aparentemente tentou tirar o gosto amargo que a versão de Super Nintendo tinha deixado na boca de alguns Nintendistas. O port, para muitos, é considerado a versão definitiva do clássico, já que além de todo conteúdo visto nos arcades, ainda tinha acréscimos, como os diálogos com os chefes, possibilidade de jogar com as skins dos personagens da franquia Street Fighter Zero e, até mesmo, ambos jogadores escolherem o mesmo personagem. Incrível.

Curiosidade: No ano de 1993 o NES recebeu uma versão de Final Fight. Ocorre que este título ficou tão diferente que acabou recendo o nome de Might Final Fight. Tudo nele é original e ótimo, sendo provavelmente um dos melhores, senão o melhor, beat ‘em up do console. Os personagens são no formato SD (super deformed) e tudo no jogo tem ar cartunizado e divertido. A Capcom acertou fazendo algo respeitando as limitações do Nintendinho e o resultado ficou espetacular. Talvez ainda receba uma análise aqui na Epic Play.

Conclusão
Final Fight foi um marco para o gênero beat 'em up na época em que foi produzido, sua meta de bater o clássico Double Dragon, sem dúvidas, foi alcançada e se tornou um sinônimo para brigas de rua. Sua popularidade ainda foi responsável por criar seu principal concorrente, Streets of Rage, formando mais um dos grandes duelos da quarta geração de consoles. Suas sequências podem não ter adquirido o nível de fama e reconhecimento que este, mas todos estão na memória daqueles que gostavam de dar uns socos em arruaceiros dos anos 80.
Bom
  • Trilha sonora de boa qualidade e original;
  • Uma revolução na qualidade dos jogos do gênero;
  • Jogabilidade acessível a todos jogadores.
Ruim
  • Dificuldade elevada;
9
Incrível

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