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Por André Eduardo Ruschel à Epic Play —

Fazer uma análise de um jogo de 1981 não é nada fácil. As pessoas ainda não falavam em gráficos e outros detalhes, assim como física e trilha sonora ainda estavam engatinhando nesta mídia. Apesar disso, Donkey Kong é um jogo tão relevante dentro da indústria videogame, que estou me arriscando a produzir este registro aqui na Epic Play. Devido a seu papel de praticamente impulsionar a Nintendo neste ramo, dei o devido valor ao contexto em que o título foi produzido, como veremos abaixo.

Uma tela marcante na história dos games.

Donkey Kong é um jogo do gênero plataforma, lançado em 1981 para arcades, recebendo, posteriormente, conversões para quase todas plataformas possíveis. Aqui, nesta análise, iremos focar em sua versão original.

Curiosidade: Donkey Kong inicialmente era para ter sido um jogo do famoso marinheiro Popeye. Só que, devido à não liberação da marca, a Nintendo teve que trocar os personagens. O curioso é que a King Features Syndicate, detentora dos direitos do personagem, percebeu o erro que havia feito e tratou de fazer um jogo com o marinheiro, que ficou um tanto parecido com o título da Nintendo, sendo atualmente lembrado como mais um clone de Donkey Kong.

Isto quase aconteceu.

Contexto do Mercado

Presidente da Nintendo Hiroshi Yamauchi.

A centenária empresa nipônica, Nintendo, fazia sucesso no Japão nos mais variados ramos, como na venda de baralhos, brinquedos como a Ultra Hand e até mesmo investindo no setor imobiliário. Quando chegou os anos 70, seu presidente, na época, Hiroshi Yamauchi, viu nos jogos eletrônicos um ramo que seria capaz de fazer os negócios atingirem, um dia, uma escala global. Ainda neste período, a Big N, investiu em um simulador de tiro baseado em pistolas laser, chamado Laser Clay Shooting, assim como já se aventurou no mercado doméstico com o TV-Game 6 e o Color TV-Game 15, sendo estes, essencialmente, variações do clássico Pong.

Os negócios iam bem para a Nintendo, principalmente para uma empresa com foco no mercado local. Acontece que a ambição de Yamauchi era grande e assim como esperado, tinha a meta de conquistar a América, objetivo de toda multinacional, visto que os EUA são o maior mercado consumidor do mundo. Para isto, o presidente em exercício “convocou” seu genro, Minoru Arakawa, para fundar junto de sua filha a Nintendo of America.

Todas telas de Donkey Kong em uma única imagem.

O mercado nesta época respirava a febre jogos espaciais, principalmente, devido ao sucesso de Space Invaders. A Nintendo, que ainda não era reconhecida pela originalidade de seus jogos, estava na onda, inclusive com um clone bem descarado do clássico da Taito. Dentre estes títulos da Big N, para arcades, havia um que se destacava, era Radar Scope. Arakawa, que já passava dificuldades com a subsidiária americana, produziu 3 mil máquinas deste título, porém os americanos não gostaram nada da experiência e 2 mil unidades ficaram encalhadas.

No Japão, Yamaushi, preocupava-se com o futuro da Nintendo fora do Japão, e a empresa, simplesmente, não poderia arcar com o prejuízo de tantas máquinas. A solução seria reaproveitar as encalhadas usando kits de conversão para os jogos. Inicialmente, a missão de salvar a Big N foi dada ao maior nome da Nintendo na época, tratava-se de Gunpei Yokoi, porém este estava com vários projetos importantes para um futuro não muito distante e, assim, resolveu apostar as fichas em um novato de 29 anos, contratado para fazer designs de gabinetes, que aparentava ter uma criatividade muito acima da média, seu nome era Shigeru Miyamoto.

Curiosidade: Um dos grandes feitos de Donkey Kong está no fato de ser o primeiro título a possuir uma cena de abertura. Apesar de Shigeru Miymoto sempre dizer que o enredo não é o principal foco em seus jogos, ele sabia da importância disto para a ambientação do game.

Donkey Kong é considerado o primeiro jogo a ter uma cena de abertura.

Bastidores de Donkey Kong

Designer Shigeru Miyamoto.

Hiroshi Yamauchi resolveu confiar em Gunpei Yokoi e deixou o novato Shigeru Miyamoto, que já havia se aventurado em alguns jogos, a cargo de transformar Radar Scope em algo lucrativo. O designer inicialmente queria algo mais próximo dos desenhos animados e viu no desenho Popeye a possibilidade de fazer algo interessante, até porque um filme com atores estava sendo feito no momento, assim como a Nintendo já tinha, anteriormente, conseguido a marca para estampar seu macarrão instantâneo (sim, a Nintendo tinha até “miojo”). Infelizmente a negociação com o personagem não foi para frente, porém, a base já estava pronta, necessitando basicamente trocar os personagens.

A expectativa era grande e a Nintendo of America resolveu, inicialmente, fazer um teste com as máquinas de Donkey Kong que chegaram aos EUA no dia 9 de julho de 1981. Os arcades foram estrategicamente espalhados em Seattle para ver a reação do público. Assim, o inesperado aconteceu: As máquinas chegaram a ultrapassar a marca de 120 partidas em apenas um dia, algo inédito para a empresa, e a Nintendo já podia começar os preparativos da comemoração, afinal, eles finalmente tinham um Pac-Man ou Space Invaders.

Personagens carismáticos sempre foram uma das prioridades de Miyamoto.

As consequências foram as mais positivas possíveis para a Nintendo. O jogo que tinha a difícil missão de vender 2 mil unidades de máquinas encalhadas em menos de 5 meses já tinha vendido cerca de 60 mil. A febre era tão grande que unidades chegavam constantemente do Japão, assim como a marca Donkey Kong passou a ser utilizada das mais variadas formas, como estampando cereais e tendo, até mesmo, desenhos animados. Paralelamente a isto, Shigeru Miyamoto teve seu mérito reconhecido pela Nintendo e seu potencial foi, e ainda é, muito bem aproveitado.

Curiosidades: O dinheiro que Donkey Kong estava fazendo chamou a atenção da Universal City Studios, que viam no título uma imensa semelhança com o clássico filme King Kong de 1933, abrindo um processo pelo direito de uso indevido de sua propriedade intelectual. A Nintendo of America comprou a briga e contratou o escritório de Jonh Kirby, especialista na área. Na corte foi decidido que o conceito da obra original já havia caído em domínio público, dando vitória para a Big N. Só que não acabou por aqui, a Universal então resolveu fazer seu jogo de King Kong, utilizando serviços da Tiger Electronics para isto, com uma semelhança incrível com nosso DK. Desta vez foi a Nintendo que processou a Universal, que conseguiu comprovar ser uma cópia, conseguindo os lucros das vendas, além da retirada imediata dos jogos do mercado. O mundo realmente dá voltas. Ahh! A Nintendo não deixou de homenagear o grande advogado concedendo seu nome a um de seus mais importantes personagens.

Análise Técnica

Um dos grandes destaques de Donkey Kong, em seu tempo, foi possuir uma temática bastante diferenciada de seus concorrentes do período, em que era dominado por jogos envolvendo alienígenas e naves espaciais (sérias consequências dos fenômenos da época, como Space Invaders e Star Wars). Shigeru Miyamoto trouxe algo diferente, era um jogo que buscava nos desenhos animados sua principal inspiração, com animações rebuscadas e carismáticas que conseguiam transmitir até mesmo humor durante a pequena, porém marcante, aventura.

O gameplay em si é bastante simples e intuitivo. Presenciamos o gorila (Donkey Kong) carregando uma vítima (Pauline) para o auto de uma construção inacabada. Ao ver a situação, o protagonista (Jumpman) parte ao resgate daquela que aparenta ser sua namorada, enquanto o macaco fica atirando objetos para nos impedir. Não podemos esquecer que durante o percurso podemos ter acesso ao famoso “martelão” que nos livra dos obstáculos que encontramos. Quem já jogou Smash Bros. sabe do que esta arma é capaz.

As cenas eram simples mas, ainda assim, revolucionárias.

Graficamente o jogo é incrível e, sabiamente, a Nintendo soube aproveitar os limitados recursos que tinham disponíveis na época, assim sendo, o Mario, digo Jumpman, tem bigodes grandes porque seria impossível criar uma boca de forma satisfatória, seu boné veio da razão de todos modelos de cabelo ficarem abaixo da qualidade desejável, assim como sua coloração vermelha não veio do logo da Nintendo, mas sim de ser a que tinha o melhor contraste com o cenário, entre as poucas cores disponíveis durante seu desenvolvimento. Caso esteja achando que isto não é revolucionário suficiente, pense que o personagem mais carismático da história dos games até aquele momento era uma bola amarela que somente abria e fechava a boca e, sim, estou falando de Pac-Man.

Na introdução desta análise eu falei que é difícil falar em física nos jogos deste período, mas no caso de Donkey Kong isto acaba sendo necessário, já que muitos críticos consideram ele uma verdadeira referência ao início disto. Ao controlarmos Jumpman, sentimos uma resistência por parte do personagem, assim como ocorre uma derrapagem quando o fazemos trocar de direção durante nossa corrida. A jogabilidade, então, podemos dizer que é ótima, apesar de não haverem muitos concorrentes, em sua época, para fazermos um maior comparativo.

Abaixo imagens do clássico arcade de Donkey Kong.

A parte sonora, apesar de bastante limitada, assim todos jogos de sua época, é satisfatória e não deixa a desejar, sendo até mesmo marcante seu tema de abertura. Quanto a sua dificuldade, podemos dizer até que o game é fácil para o padrão da época, não exigindo muita habilidade e experiência de jogo para que consigamos ultrapassar pelos quatro níveis presentes na aventura. Em uma época em que pontuação era o principal objetivo nos jogos, Donkey Kong trouxe diferentes tipos de cenários que nos divertiam bastante antes de começarem a se repetir em ciclos.

A diversão é muito grande em Donkey Kong, sendo que até hoje muitas pessoas ainda buscam o título mundial de melhor jogador do game. O controle do personagem é satisfatório para a época, assim como sua dificuldade balanceada e necessidade de reflexos rápidos para que não sejamos atingidos durante a campanha. A combinação de tudo isto fez com o título se imortalizasse nas páginas da história dos games e o tornasse um clássico atemporal.

Curiosidade: Donkey Kong figura entre os jogos que concorrem ao título de ser o que recebeu maior números de conversões para as mais diversas plataformas. Porém, de todas estas há uma que merece um maior reconhecimentos que todas demais. Trata-se de seu “remake” para Game Boy. Aqui o jogo segue a linha do original apenas nas quatro primeiras fases, partindo a seguir para uma série de 97 estágios inéditos, envolvendo quebra-cabeças e outros, totalizando 101 etapas. O título é tão diferente de sua versão original que é conhecido popularmente como Donkey Kong 94.

Fases de Donkey Kong

Apesar de atualmente parecer pouco um game de plataforma possuir apenas 4 fases, que na verdade são 4 telas. Em sua época isto chamou a atenção dos jogadores, de forma que a sensação de que tínhamos uma experiência diferente a cada resgate de nossa donzela em perigo. Abaixo vamos conhecer estas etapas que marcaram uma geração de jogadores e que retornavam a cada ciclo percorrido.

  • Barrel: Esta não somente é a primeira etapa do game como até hoje é um símbolo do jogo. Aqui, Donkey Kong fica arremessando barris que descem pelas “armações” da obra, ou pelas escadas. Não saber sua direção exata é um dos seus maiores problemas. Se isto não fosse problemas suficientes, o gorila ainda joga um barril azul diretamente em nosso personagem em determinados momentos, assim como um fogo sai do barril de óleo no início do level.

Uma imagem símbolo dos anos 80.

  • Elevator: Agora nossa maior preocupação são as plataformas móveis que transitam verticalmente pela fase. Aparentemente não é algo muito complicado. O problema é Jumpman, apesar do nome, morre com uma certa facilidade quando cai de alturas elevadas, o que nos exige precisão nestes movimentos. Além disto, devemos nos preocupar com bolas de fogo que percorrem o cenário e molas que ficam “pulando” em uma trajetória pré-determinada.

As primeiras plataformas móveis nós nunca esquecemos.

  • Conveyor Belt: Nesta etapa a principal novidade é a presença de esteiras móveis e escadas retráteis que nos atrapalham no objetivo de chegar novamente até Pauline. Além disto há as já conhecidas bolas de fogo percorrendo o cenário. Level bastante fácil depois que nos acostumamos com ele.

Esteiras aparecem para incomodar o carpinteiro e futuro encanador.

  • Rivet: Agora nosso objetivo é diferente da primeira fase, em que deveríamos apenas ir ao encontro de Pauline. Aqui nossa meta é fazer desabar o “esqueleto” de aço em que Donkey Kong está. Para isto precisamos remover os blocos amarelos que fazem as conexões. Durante este processo devemos evitar os “fogos-vivos” que tentam nos deter. Curiosamente considero este level bem mais fácil que o primeiro.

Agora o objetivo não é resgatar a Pauline, mas fazer o macaco cair.

Curiosidade: Nos anos 80 a Nintendo era bastante flexível quanto a possibilidade de liberar suas franquias para serem utilizadas das mais diversas formas, como em desenhos animados, livros, quadrinhos e outros. Dizem que o comportamento da empresa mudou quando chegou nos cinemas a bomba que foi o filme de Super Mario. A partir de então passou a haver um acompanhamento mais significativo na criação de obras em que seus personagens apareciam. Uma participação recente, que merece um destaque, foi no filme Pixels (2015), em que a Terra é invadida por seres de games dos anos 70 e 80. Segundo seu diretor, Chris Columbus, a Big N foi bastante exigente na liberação do personagem, assim como contribuiu na participação. Abaixo vemos a cena em que Donkey Kong aparece, não por acaso ele atua como o “último chefão” na aventura. Falem a verdade, ficou muito legal, não é mesmo?

Conclusão
Donkey Kong para muitos foi o surgimento de um dos principais gêneros da história dos games, o plataforma. Aqui tivemos a estreia do personagem mais icônico da indústria, Super Mario, quando ainda nem tinha este nome. O título fez a Nintendo acreditar que poderia inovar neste setor, que estava em elevado crescimento, e colocou o designer Shigeru Miyamoto em posição de ser ouvido quando tinha ideias a frente de seu tempo. Certamente um jogo que jamais será esquecido.
Bom
  • Gráficos revolucionários para a época;
  • Dificuldade balanceada;
  • Jogabilidade inovadora dentro de seu gênero.
Ruim
  • Poderiam haver mais algumas fases.
9
Incrível

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