Por André Eduardo Ruschel à Epic Play —

Alex Kidd in Miracle World é um jogo que está no coração dos brasileiros e que foi a porta de entrada para muitos neste vasto mundo dos videogames. No Brasil, veio na memória do Master System por algum tempo, sendo por esta razão tão popular por aqui. Meu Master veio com Sonic na memória, mas fiz questão de ter esta maravilha na época e possuo o cartucho até hoje em minha estante. Criado nos anos 80 para bater de frente com Super Mario Bros., acabou não tendo a popularidade merecida nos maiores mercados, mas aqui seu legado foi diferente e muitos consideram este título superior à primeira grande aventura do bigodudo, sendo eu uma destas pessoas.

Abaixo, vemos a típica dúvida: será que vai ter fantasma?

Alex Kidd in Miracle World é um jogo do gênero plataforma, lançado para Master System em 1986, sendo desenvolvido e publicado pela SEGA.

Curiosidade: Que as capas americanas dos jogos de Master System eram, em regra, feias, todos sabemos, mas por alguma razão os desenhistas desta conseguiram fazer um Alex loiro (vai entender). Outro detalhe nesta ocidentalização se deu com a clássica cena de transição de fase em que o protagonista comia um bolinho de arroz, sendo trocado por um hambúrguer na versão que vinha na memória dos consoles ocidentais (porém continuava um bolinho de arroz nas versões em cartucho).

Este Alex Kidd loiro é difícil de entender e aceitar.

Bastidores do Jogo

O designer Kotaro Hayashida

Para falar de Alex Kidd, devemos primeiramente voltar até 1985, ano do lançamento do Mark III (Master System japonês) e de um dos jogos mais populares de todos os tempos, Super Mario Bros. A SEGA, que possuía uma condição estável no ramo dos arcades, havia tido a ambição de levar seus jogos para uma plataforma própria, para assim não publicar seus títulos em consoles de terceiros. Ocorreu que, após uma série de falhas estratégicas com o SG-1000 e o SG-1000 II, restou à empresa desenvolver um jogo de plataforma popular para seu novo videogame, com um personagem carismático e capaz de vender consoles, ou seja, um novo Mario.

Esta difícil e ambiciosa missão foi designada principalmente ao designer Kotaro Hayashida, que assim descreveu a situação: “A SEGA tinha acabado de colocar o SEGA Mark III no mercado e me pediram, então, para criar algo que pudesse fazê-lo vender igual ao console do concorrente (Nes). Foi com esta missão quase impossível que comecei a juntar ideias para desenvolver um novo jogo de ação”.

Nem todos inimigos de Alex são destrutíveis.

A ordem principal que o time de produção recebeu, era que o título deveria abusar do poderio superior que o Mark III possuía quando comparado com o seu concorrente, assim como o produto final deveria ser capaz de fazer o consumidor escolher e até mesmo trocar de console após conhecê-lo. Com este pensamento, Hayashida percebeu que itens mágicos e veículos seriam uma atraente novidade para o gênero plataforma. A ideia do grande soco veio como a principal forma de diferenciar Alex de Mario, assim como a principal marca deste jogo, as clássicas partidas de jan-ken-pon, que disputamos contra os chefes.

Pode até ser que cumprir a meta de superar as vendas e a popularidade de Super Mario não tenham sido alcançadas, mas que os donos de Master System tiveram acesso, já no começo de vida do console, a um bom jogo, ninguém pode negar.

Nosso herói é carismático até morrendo.

Kotaro Hayashida, possuidor do pseudônimo Ossale Kohta, é conhecido por ser muito tímido e reservado. Começou a trabalhar na SEGA no ano 1983 e foi chamado para começar lá quando já possuía uma entrevista de emprego na Namco. Em seu currículo temos títulos como Gang’s Fighter, Ninja Princess, Zillion, Space Harrier II e Phantasy Star. Realizado por trabalhar na área de jogos, certa vez disse estas palavras: “Quando vi minhas concepções transformadas em realidade na tela do jogo, senti uma alegria que não trocaria por nada neste mundo”. 

Curiosidade: O subtítulo do jogo inicialmente seria Miracle Land e teria mais elementos de RPG em sua jogabilidade. Alex Kidd também usaria um bastão como arma principal. Depois de lançado, os ocidentais reclamaram que os botões de ação e pulo do personagem estavam invertidos quando comparado com Super Mario (apesar de ser o padrão normal para os japoneses). Quando a versão disponibilizada na memória do Master System foi comercializada, estas funções dos botões foram ajustadas para ficarem mais semelhantes aos demais jogos de plataforma do período.

Enredo de Alex Kidd in Miracle World

O enredo de Alex Kidd é simples mas envolvente, possui uma narrativa interessante, com personagens e chefes que falam conosco durante a campanha. A seguir, vamos conferir a história do protagonista, sendo spoilers irrelevantes e que não atrapalham em nada a experiência de jogo.

Será que algum dono de Master System não conhece esta passagem secreta?

Há muitos séculos, em um planeta chamado Aries, vivia um garoto chamado Alex. Durante sua infância, ele viveu em um local chamado Monte Eterno (primeira fase do jogo), estudando uma arte marcial conhecida como Shellcore. Esta técnica tinha como principal função possibilitar que seu usuário quebrasse grandes pedras sem maiores dificuldades.

Tudo corria bem, até o dia em que nosso herói encontrou um senhor à beira da morte que lhe fez uma revelação: “A pacífica cidade de Radactian (12ª fase do jogo) estava correndo um grande perigo”. Ao dizer estas palavras, deu a Alex um mapa junto de um medalhão feito com um pedaço da mística Pedra do Sol. Curioso com tudo que foi dito, o protagonista vai ao encontro de mais informações a respeito do que havia presenciado. Aqui começa a campanha de Miracle World.

Clássica partida de papel, tesoura e pedra. Melhor copiar as respostas para a próxima vez.

Após alguns eventos, Alex descobre junto a um ancião que um invasor chamado Janken, o Grande, havia tomado as pacíficas terras de Radactian e sequestrado o Rei Thunder, o príncipe Egle e a princesa Lora, assim como petrificado os habitantes daquela região do planeta. Se não bastasse, o sábio ainda revela que Alex pertence à família real de Radactian, sendo irmão gêmeo de Egle. Assim, o protagonista parte com o objetivo de resgatar sua desconhecida família e salvar seu povo.

Curiosidade: Alguns sprites do jogo Alex Kidd in Miracle World foram claramente reciclados do game Teddy Boy, lançado originalmente para arcades em 1985 e portado para Master System posteriormente. Além da clara semelhança dos protagonistas, o inimigo Daruma aparece idêntico em ambos títulos.

Análise Técnica

Os objetivos por trás da criação de Alex Kidd eram bastante ambiciosos. Hayashida queria um jogo de plataforma original, com elementos de RPG e que tivesse um forte aspecto narrativo. Não era fácil, mas grande parte disso podemos ver logo no começo de uma partida de Miracle World. Já na primeira fase, ao invés de irmos da esquerda para a direita, temos um level vertical em que devemos descer até o nível da água e então buscar o final da etapa. Na segunda fase, de cara nos deparamos com uma loja em que podemos gastar o dinheiro que coletamos pelas fases, aqui estando o elemento de RPG desejado. Sem dúvidas, somando com o uso de veículos e diversos itens, este jogo se tornou em um game bastante original em seu tempo.

Falem a verdade. Quem conseguiu desvendar o código sem ver dicas?

A jogabilidade de Alex Kidd in Miracle World é bastante diversificada e podemos ver isso já em sua tela de apresentação, em que observamos o protagonista nadando, usando o jet-ski e seu helicóptero. Durante os combates, enfrentamos os inimigos com socos, magias e veículos que encontramos durante a campanha, ou que compramos nas lojas. Saber usar o item certo na hora certa faz parte do fator estratégia presente no título. Outro destaque aqui são as partidas de pedra, papel e tesoura, característica que se tornou marca registrada do jogo. Muitos criticam estes chefes em que devemos decorar suas respostas para conseguirmos sair ilesos, uma vez que “quebram” o ritmo da aventura. Tudo isto é bastante subjetivo, já que vai depender da opinião daquele que estiver jogando.

O controle do personagem talvez seja seu maior defeito. Muitas vezes demora para o jogador ter pleno domínio de Alex, uma vez que seu caminhar é bastante sensível e muitas vezes o jogo exige precisão nos pulos e pequenos espaços. Se não bastasse, o protagonista não tem uma ‘segunda chance’, como Mario possui com os cogumelos ou Sonic com seus anéis. No menor esbarrão, estamos mortos.

Momento do jogo para mostrar que ele não estava para brincadeiras.

Estes elementos do parágrafo anterior já nos levam a falar da dificuldade elevada que Miracle World possui quando comparado com a maioria dos jogos de Master System. Com um personagem frágil, lutas contra chefes que muitas vezes necessitam sorte e um quebra-cabeça final quase impossível de ser resolvido sem um guia, fica bem complicado recomendá-lo para uma criança iniciante nos games. Porém, digo que isto colabora para seu fator replay e que nos motiva a insistir nesta grande aventura.

Os gráficos do jogo são bastante coloridos durante toda a campanha, mostrando a superioridade que o hardware da SEGA possuía na terceira geração de consoles. O level designs realmente é bastante original e variado, com fases abaixo do nível da água, voando, e com características únicas, como no caso do ato predominantemente vertical, citado anteriormente. Os cenários ao fundo são bonitos na maioria das fases, mas em algumas outras deixam um pouco a desejar. Nós, fãs de Master System, sabemos que o console era capaz de fazer melhor, mas devemos lembrar que título possui apenas 1 megabit de capacidade, e que, mesmo assim, já foi um feito, uma vez que era um dos primeiros jogos a ter a classificação ‘golden cartridge’, sendo utilizado a mídia cartucho, e não os cartões de menor capacidade comercializados na época.

O interessante mapa de Miracle World, com os itens para nossa escolha.

Falando um pouco dos itens utilizáveis durante a partida, eles são vários e exigem uma certa estratégia por parte do jogador a respeito de quando utilizá-los, uma vez que eles possuem um melhor momento para isto. Estes são: 1) Power Bracelet (bracelete do poder): com ele podemos desferir ataques a distância, infelizmente não funciona na água e o perdemos quando passamos de área; 2) Teleport Powder (pó mágico): nos deixa “invisível”, permitindo que passemos pelos inimigos; 3) Cane of Flight (bengala voadora): nos dá a capacidade de flutuar por um tempo limitado; 4) Magic Capsule A (Cápsula mágica A): é uma mágica de ataque em que disparamos oito “amigos” de Alex que irão de encontro ao inimigo; 5) Magic Capsule B (Cápsula mágica B): mágica de defesa que gera um escudo capaz de nos defender das investidas inimiga; 6) Esfera Telepática: item de uso ilimitado que nos permite ler a mente dos chefes durante as partidas de papel, tesoura e pedra; infelizmente o chefe troca na última hora exata, tentando nos enganar.

Abaixo vemos imagens dos três veículos utilizado durante a campanha, um grande diferencial de Alex Kidd in Miracle World. Eles são: 1) Suisui Boat: lancha capaz de dar tiros; 2) Peticopter: um helicóptero capaz de dar tiros, seu controle é muito interessante, uma vez que flutua através das pedaladas dadas por Alex; 3) Sukopako Motorcycle: motocicleta em que podemos percorrer cenários em alta velocidade, atropelando os inimigos e a maior parte dos obstáculos.

O tempo de campanha é difícil de ser mensurado devido ao fato do jogo ser curto, porém, com uma dificuldade elevada. Mas acredito que após conhecer os padrões dos chefes, desvendar os enigmas e saber desviar das armadilhas, o jogador conseguirá terminar o título em menos de uma hora.

A trilha sonora foi composta por Tokuhiko Uwabo (pseudônimo Bo) e ficou muito boa. Apesar de não haver um número muito grande de faixas, as que estão presentes combinam com as situações encontradas durante a campanha. Assim, quando estivermos na água escutaremos sua música típica, assim como as trilhas dos castelos e dos veículos. Facilmente o jogador ficará cantarolando as canções depois de algumas horas de jogatina. Bo relembra as instruções que recebeu durante a produção do game: “Me forçavam o tempo todo a refazer as músicas, dizendo que o jogo precisava de temas memoráveis e fáceis de assobiar”. Acho que ele conseguiu, não é mesmo?

Abaixo, vemos a trilha sonora completa de Alex Kidd in Miracle World.

Curiosidade: Em 2009 foi lançado um álbum duplo com as trilhas sonoras dos principais jogos da franquia Alex Kidd. Além de efeitos sonoros que estavam entre os bônus, também havia uma faixa com a música tema de Miracle World cantada por Takenobu Mitsuyoshi, famoso por trabalhos em jogos como Shenmue, Virtua Fighter e Daytoooonaaa USA (espero que tenham entendido a referência). Ficou incrível e abaixo vemos esta versão.

Curiosidade: Apesar da SEGA nunca ter reconhecido o Alex Kidd como seu mascote oficial, todos nós, donos de Master System, assim o consideramos até a chegada de Sonic em 1991. Concordam?

O Pesadelo que é o final do jogo. Se ainda não jogou este Alex Kidd, então não olhe muito.

Jogado no Master System.

Conclusão
Com uma trilha sonora de poucas faixas, mas ótimas; gráficos bastante caprichados; jogabilidade diferenciada durante toda campanha, com uso de itens e veículos; e uma dificuldade elevada, porém aceitável na época; não é difícil reconhecer que Alex Kidd in Miracle World conseguiu ficar bem superior ao jogo que visava superar. Porém, infelizmente, o personagem não se tornou um ícone dos games como merecia, recebendo seu reconhecimento apenas após ser colocado na memória do Master System II, quando o console recebeu uma revisão de hardware, antes de ser lançado em mercados menos importantes, como Europa, Austrália e Brasil. Enfim, mais uma vez devemos agradecer à SEGA e à Tec Toy por nos fornecerem esta pérola da terceira geração dos consoles, que muitos americanos e japoneses não tiveram o prazer de aproveitar como nós fizemos.
Bom
  • Boa trilha sonora;
  • Diferentes tipos de veículos e itens;
  • Bons gráficos com rica quantidade de detalhes.
Ruim
  • Dificuldade elevada quando comparada com os jogos de hoje e com a maioria dos títulos da biblioteca do Master System.
9
Incrível

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