Por André Eduardo Ruschel em março de 2019

A palavra limbo, de acordo com o dicionário Michaelis de língua portuguesa, significa “limite de uma superfície, esquecimento, local intermediário entre o céu e o inferno”. Saber estas palavras nos ajudam a tentar compreender o que é Limbo, jogo premiado que, assim como tantos indies, nos faz lembrar que games também são obras de arte. Com um enredo vago e aberto a interpretações por parte do jogador, este título conquistou muitos por sua temática sombria, dificuldade satisfatória e arte única. Uma verdadeira aventura que nos motiva a ir até sua conclusão para entender o que estava acontecendo ou, ao menos, fazer seu protagonista livrar-se daquela possível triste realidade.

Já no começo da aventura percebemos que Limbo não é, exatamente, um jogo de plataforma destinado ao público infantil.

Limbo é um jogo que mistura elementos de quebra-cabeça e plataforma, desenvolvido e publicado pela Playdead, sendo lançado originalmente como um exclusivo de Xbox 360 em julho de 2010, na Xbox Live Arcade, recebendo inúmeros relançamentos para diversas plataformas. Atualmente o encontramos também no PlayStation 3, PlayStation 4, Windows, Xbox 360, Xbox One, Switch, PlayStation Vita, iOS e Android. Abaixo, vemos o trailer de Limbo.

Curiosidade: Limbo foi um sucesso de público de forma quase imediata, vendendo cerca de 300 mil unidades em seu primeiro mês e mais de 1 milhão em seu primeiro ano, época em que ainda era exclusivo do Xbox 360.

Bastidores de Limbo

Desde o início do projeto de Limbo, o diretor, Arnt Jensen, tinha como finalidade atingir 3 objetivos principais: 1) que a arte do jogo fosse minimalista, com uma atmosfera original e sem personagens altamente detalhados; 2) que os controles do personagem fossem simples e intuitivos, como andar, pular e agarrar; sendo assim, acessível para todos que tivessem interesse nesta experiência; 3) que o game não possuísse um tutorial ou texto explicativo, cabendo ao jogador aprender a jogar por si só e interpretar seu enredo.

Aparentemente, muito do projeto inicial de Limbo sofreu mudanças no decorrer de seu desenvolvimento. Inicialmente o encontro com as aranhas gigantes seriam mais para o final da aventura, assim como mais eventos com outros personagens estariam presentes.

Imagens tensas para um jogo de plataforma envolvendo crianças. Não acham?

Inicialmente, o projeto estava sendo planejado para ser um título gratuito para Windows, mas após o jogo estar em um alto grau de produção, os desenvolvedores mudaram de ideia. Muitos investidores externos do projeto requereram a adição de modos multiplayer e níveis de dificuldade ajustáveis (típicos em jogos modernos), mas foram ignorados. O time de desenvolvimento de Limbo variava entre 8 e 16 programadores, durante seu ciclo de desenvolvimento, e foi lançado com exclusividade temporária no serviço Xbox Live Arcade, como o primeiro título da promoção anual chamada “Summer of Arcade”. Conforme dito pelo produtor Mads Wibroe, esta decisão de lançar inicialmente para Xbox 360 visava combater a pirataria do título em sua recém chegada ao mercado, o que seria difícil de controlar se o mesmo chegasse simultaneamente na plataforma Windows.

Curiosidade: Em junho de 2016, o Xbox One recebeu o lançamento exclusivo temporário (breve) do segundo jogo desenvolvido pela Playdead. Inside para muitos é considerado o sucessor espiritual de Limbo e mantém sua essência de ser um jogo que mistura elementos de plataforma e quebra-cabeças. Tão premiado quanto seu antecessor, chegou até mesmo a concorrer no ‘The Game Awards’ como melhor jogo do ano, sendo um título maravilhoso que merece ser jogado. Porém, isto é assunto para uma outra análise.

Enredo e Narrativa

Como dito na introdução desta análise, o enredo de Limbo é aberto a interpretações, por isto que o que vamos ver a seguir é um pouco de como entendi seus acontecimentos. Não há spoilers significantes, capazes de comprometer negativamente a experiência de jogo.

O protagonista, aparentemente uma criança do sexo masculino, acorda em um local ausente de cores e que lembra uma floresta. Ao seguir em frente, tudo indica que o garoto procura pela irmã que estava desaparecida, mas ao encontrar uma personagem feminina, ela se afasta. Outros seres humanos são avistados, todos com uma aparência infantil, porém, eles são hostis e atacam sem prévio aviso. Até este ponto podemos lembrar que, segundo algumas interpretações religiosas, o limbo seria o local para onde iriam as almas daqueles que não chegaram a serem batizados, isto explicaria a presença majoritária de crianças neste ambiente. Situação semelhante vemos no incrível jogo Dante’s Inferno.

Nos depararmos, logo no começo, com esta aranha, já nos coloca na atmosfera sombria que Limbo possui.

A narrativa de Limbo se dá apenas por aquilo que avistamos em seu cenário, deixando livre para o jogador compreender onde o protagonista está e quais seus objetivos. Não demora muito para encontrarmos crianças enforcadas e uma aranha gigante. Vale lembrar aqui que aracnofobia é um dos medos mais populares em pessoas de todo o mundo. Ou seja, não é impossível imaginarmos que os inimigos sejam materializações dos receios do protagonista. Outro detalhe, que vale a pena ser dito, é o fato de encontrarmos crianças mortas no cenário, conforme vemos na primeira imagem desta análise. Por si só isto já nos dá um choque, uma vez que espera-se que um jogo de plataforma seja “familiar”. Aqui ressalto que nem mesmo o GTA possui crianças em seu conteúdo para, assim, evitarmos de vê-las mortas ou matá-las.

Limbo e sua atmosfera sombria.

Análise Técnica

Os gráficos de Limbo são bastante simples, com predomínio das cores preto e branco. Isto, junto de suas características sonoras, fazem sua ambientação ser misteriosa, sendo muitas vezes associada pelos críticos como um jogo de terror, ‘film noir’ ou ao expressionismo alemão. Tudo nele é bem animado e nos faz distinguir com facilidade os objetos nocivos ou inofensivos presentes durante a aventura. O estilo artístico presente na campanha é seu maior destaque, como no caso das animações de morte, bastante inquietantes para os jogadores. A jogabilidade de Limbo é simples, consistindo em correr, pular, empurrar e se agarrar em beiradas, tudo visando a sobrevivência do protagonista e a solução de quebra-cabeças, principal marca da jogabilidade. Reconhecer as armadilhas do cenário, desviar delas ou desativá-las fazem parte do jogo logo no começo da campanha.

Animações de morte violentas nos fazem ter cuidado durante a aventura.

A dificuldade de Limbo é baixa, sendo que a grande maioria dos quebra-cabeças são bastante intuitivos, bastando uma análise atenta do ambiente em que o personagem se encontra para logo saber o que fazer e dar prosseguimento na aventura. Enquanto o jogo era desenvolvido, tinham como meta produzirem quebra-cabeças não tão fáceis como os presentes em Uncharted 2, mas não tão difíceis como os de Prince of Persia (2008), sendo os de Limbo um equilíbrio entre ambas fontes de inspiração.

Simples quebra-cabeças fazem parte do gameplay de Limbo.

A campanha é bastante curta e isto acabou sendo um ponto negativo por grande parte da crítica. Na primeira partida o jogador provavelmente vai levar cerca de 3 horas para chegar até a conclusão do jogo, isto caso morra um bom número de vezes e fique preso em alguns quebra-cabeças, presentes mais próximos ao final da aventura. Pessoalmente, não vejo isto como um problema e acredito que caso o jogo tivesse uma campanha maior, poderia deixar a experiência cansativa e afetar a diversão que o título propõe.

Elementos de nosso mundo se misturam à realidade distópica do jogo.

O fator replay é muito baixo. Com uma campanha curta e altamente linear, o jogador não vai ter motivos para jogar Limbo uma próxima partida depois de obter os troféus. Porém, a qualidade da arte presente no título é tão grande que é possível que o jogador tenha interesse em jogá-lo novamente ou ao menos apresentá-lo para outras pessoas.

A diversão de se jogar Limbo é alta, mas apenas para aqueles dispostos a experimentar algo diferente dentro do gênero plataforma. Sem um personagem muito habilidoso e ausente de músicas felizes, devemos perceber a intenção dos criadores por trás da criação. Limbo é, sim, um jogo de plataforma, mas não é para crianças jogarem. Durante a partida devemos prestar atenção constantemente naquilo que nos cerca e sempre lembrar da fragilidade do protagonista. Os checkpoints próximos mostram que realmente morremos frequentemente e que devemos aprender com os erros. Assim como falei na análise de Journey, aqui é um dos casos em que devemos nos permitir uma experiência diferente para conseguir aproveitar o jogo da forma como deve ser aproveitado.

Constantemente devemos ficar atentos a armadilhas em Limbo.

As mortes em Limbo são bastante violentas e até mesmo macabras. Segundo os desenvolvedores, além disto contribuir para a ambientação presente no jogo, também visava ao jogador não cometer erros futuros, evitando, assim, assistir novamente àquelas cenas desconfortáveis. As músicas e efeitos sonoros de Limbo estão entre os fatores mais controversos do título, sendo que muitos críticos divulgaram em suas análises que o jogo era totalmente ausente de trilhas sonoras. Isto está errado.

A trilha sonora de Limbo foi composta por Martin Stig Andersen, um graduado músico especialista em músicas acusmáticas, sendo estas utilizadas durante o jogo. Este estilo musical, pouco conhecido, busca que o ouvinte interprete a música sem saber a origem da fonte sonora, assim como recursos de melodia, harmonia e ritmo acabam sendo pouco utilizados. Segundo Andersen, estes arranjos ajudam a invocar emoções por parte do jogador. Ou seja, aquele que está jogando não deve interpretar por si só apenas o enredo de Limbo, mas também, suas músicas.

Abaixo, vemos a controversa trilha sonora de Limbo.

Curiosidade: Limbo coleciona troféus nas paredes de seus criadores. Antes mesmo de seu lançamento, já haviam recebido prêmios de excelência técnica e de arte visual na Game Developers Conference em 2010. Nesse mesmo ano, ganhou da Gamespot o título de “melhor jogo baixável”. Após lançado, foi nomeado na European Milthon Awards como jogo do ano, melhor jogo independente e melhor arte visual. Na “Spike Video Game Awards” ganhou o prêmio de melhor jogo independente. Estes foram apenas alguns dos vários prêmios recebidos pelo título, o que, certamente, deu confiança para o estúdio dar sequência em seu próximo jogo com temática semelhante.

É necessário uma sincronia entre raciocínio e habilidade para concluirmos a aventura de Limbo.

Jogado no Xbox One.

Conclusão
Este foi um grande jogo que ajudou a abrir as portas para os games indies no início da década em que estamos. Em um momento que a mídia videogames estava infestada por jogos de FPS e focados em multiplayer online, Limbo fez a indústria perceber que um título de plataforma com gráficos simples, campanha curta e single player tinha espaço no mercado, desde que fosse original e trouxesse qualidade em sua essência. Recomendamos que aqueles que ainda não tiveram o prazer de apreciá-lo, deem uma chance. Quem sabe você também poderá começar a ver os jogos indies com outros olhos.
Bom
  • Dificuldade acessível a todos;
  • Estilo artístico rebuscado e merecedor de muitos elogios;
  • Atmosfera original com enredo aberto a discussões e interpretações.
Ruim
  • Trilha sonora pode ser perturbadora para algumas pessoas;
  • Campanha muito curta.
8.5
Bom

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