Por Jean Felipe em abril de 2019

Nove segundos. Era o recorde estabelecido por Thomas “Panther” Pilger em 1998 para um speedrun no clássico jogo Doom. Este speedrun, corrido no modo de “ultra violence speed”, corresponde apenas ao primeiro quadro do jogo. O primeiro nível, de nome “Hangar”. Sobreviveu durante mais de 20 anos, e foi finalmente batido este fevereiro por 4shockbalst.

Speedruns são uma atividade bastante comum e competitiva, que existem em vários jogos, particularmente shooters, RPG’s e jogos de plataformas. O objetivo é simples. Terminar o jogo (ou porção do mesmo) no menor tempo possível, ignorando qualquer tipo de tarefas secundárias. Por exemplo, no caso do Doom, o que importa é atingir o ponto do fim do mapa, ignorando inimigos, coleção de itens a própria vida, ou o score.

Em Doom, o modo mais comum é o “Ultra Violence Speed”, isto é, corrido no modo de dificuldade de “ultra-violence”. Para os casos em que apenas um nível é usado para a corrida, o timer do jogo é utilizado para medir o tempo corrido. Contudo, este timer apresenta uma limitação: arredonda os tempos ao segundo, sempre por baixo. Por isso, quando se diz 9 segundo, pode ser 9 segundos e 1 decima, ou 9 segundos e 9 decimas.

Arte rara do primeiro Doom, divulgada por John Romero.

O almejado segundo

E uma das dificuldades em bater o recorde estava precisamente neste ponto. O record original era de 9.91 segundos. Portanto, praticamente um segundo inteiro teria de ser ganho para bater o recorde. De uma corrida que parecia ser ideal. Parecia, mas não era. Apesar de tecnicamente a corrida ter sido bem executada, utilizando técnicas como strafe-running para acelerar o movimento do personagem ou terem sido percorridos os caminhos mais curtos, olhando atentamente, vários erros podiam ser encontrados. Por exemplo, o timing da abertura das três portas presentes no nível, não fora o ideal, e poderiam ser poupados 0.14 segundos só nesse ponto. Os caminhos tomados por Thomas foram os mais curtos, tendo em conta os inimigos presentes no nível, portanto, se os astros se alinhassem, poderia haver um nível em que os monstros permitissem um caminho mais direto. Mas mais do que corrigir estes erros seria necessário.

“Infinitas” tentativas e erros

Os corredores que se propuseram bater o recorde teriam de usar novas estratégias. Nomeadamente uma chamada SR50 strafe-running. No Doom, no que diz respeito ao movimento, as leis da física são muito bem aplicadas, havendo definições para a aceleração e atrito dos movimentos laterais e frontais. SR50 corresponde em alterar as definições das percentagens de aceleração aplicadas nestes dois vetores quando as teclas são pressionadas. Combinada com a técnica de movimento certa, representa um aumento de 10% de velocidade no final. Contudo, esta técnica é muito mais difícil de aplicar, envolvendo o uso de quatro teclas em simultâneo, em vez das duas originalmente usadas. Muito treinamento seria preciso. Dois corredores em particular, articularam esforços e competiram para atingir o novo record: 4shockblast e Looper.

Ao longo de um ano, e ao longo de 50 mil tentativas, foram tentando, ate que por fim, em Fevereiro passado 4shockblast conseguiu os 8 mágicos segundos, batendo um recorde com 22 anos. Um marco memorável e provavelmente imbatível, demonstração da determinação que os videojogos podem trazer às pessoas, na demanda pela perfeição.

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Jean Felipe é diretor-geral e fundador da Epic Play. Você pode acompanhar mais sobre o seu trabalho no YouTube ou pode realizar doações para o desenvolvimento de projetos.

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