Por André Eduardo Ruschel à Epic Play —

Assim como a maioria daqueles que gostam de games, eu acompanho as opiniões da crítica especializada e, na maior parte das vezes, sigo suas instruções daquilo que é considerado de alta ou baixa qualidade. Afinal, com o alto custo dos jogos e pouco tempo para nos dedicarmos a eles, é necessário saber onde investir nosso dinheiro e horas vagas. Ocorreu que, antes do lançamento de Ryse: Son of Rome, este título havia me causado bastante interesse devido a sua temática, gráficos e estilo de gameplay focado em batalhas divertidas. Após seu lançamento, vi um número enorme de avaliadores darem notas medíocres, incluindo uma absurda 4/10, divulgada por um dos maiores sites americanos. Por um bom tempo o ignorei, mas recentemente, com o acesso ao título através do Gamepass da Microsoft, acabei resolvendo dar uma chance para a experiência e, assim como imaginava antes dele ser lançado, adorei o jogo. Isto me motivou a escrever a análise a seguir, uma vez que, talvez, ajude a desfazer a falácia altamente divulgada de que este jogo é ruim.

Mesmo para um jogo de 2013, a qualidade dos gráficos não deixa a desejar quando comparado aos títulos de 2019.

Ryse: Son of Rome é um jogo do gênero hack and slash, sendo desenvolvido pela Crytek e publicado, originalmente, pela Microsoft Studios. Foi lançado inicialmente como um título exclusivo de Xbox One, em 2013, e posteriormente, em 2014, portado para PC.

Abaixo, vemos o trailer de lançamento de Ryse: Son of Rome.

Curiosidade: Acredita-se que a versão de Xbox One de Ryse: Son of Rome tenha vendido em torno de 1,5 milhões de unidades. Um número até expressivo quando analisamos uma franquia estreante, porém, muito abaixo do esperado pela Microsoft e pela Crytek, que haviam investido bastante em sua produção e marketing. Infelizmente, as críticas excessivamente negativas acabaram afetando as vendas deste grande jogo e, consequentemente, as esperanças de uma continuação em um futuro próximo.

Bastidores de Ryse: Son of Rome

Imagem da época em que Ryse ainda era o projeto de um jogo em primeira pessoa para o Kinect.

Por incrível que pareça, Ryse começou a ser desenvolvido em 2006 como um RPG de ação, com visão em primeira pessoa e exclusivo para o acessório Kinect. Apresentado inicialmente ao público na E3 de 2010, possuía o codinome Kingdom e os jogadores deveriam jogá-lo de pé, dando socos e chutes, além de simularem estar manuseando uma espada.

No início do ano de 2011, o projeto de desenvolvimento do jogo foi transferido do estúdio da Crytek em Budapeste para sua sede em Frankfurt, na Alemanha. Neste processo, a maior alteração se deu em alterar o título que, inicialmente, se passaria em um reino fantástico, para a Roma Antiga. Alguns membros presentes no projeto acreditaram que o ideal para um jogo de Kinect seria que o título fosse “on-rail”, ideia que foi descartada posteriormente. O que todos tinham certeza é que o poder do motor gráfico, CryEngine, deveria ser muito bem aproveitado.

A dinâmica das batalhas lembram bastante os jogos da franquia Batman.

Após testes com diversos protótipos, a Crytek, acreditando que a utilização do acessório deixaria os jogadores cansados demais para aproveitar Ryse de forma satisfatória, resolveu fazê-lo como um jogo em terceira pessoa que apenas utilizaria o Kinect de forma complementar e não obrigatória. Assim foi informado ao público por Phil Spencer, vice-presidente corporativo da Microsoft Studios, na E3 de 2012. Em maio de 2013 o título já passou a ser divulgado como um dos jogos exclusivos do lançamento do Xbox One.

Desde a origem do projeto, uma das metas era de que Ryse tivesse a fluidez de uma obra cinematográfica. Para isto, o diretor de cinema Peter Gornstein, que trabalhou no jogo, informou a necessidade de dar uma forte personalidade aos personagens do game; haver um trabalho exímio na captura de movimentos e criarem cenas de transição envolventes, que fizessem os jogadores terem curiosidade de saber mais sobre a história retratada.

As cores dos inimigos durante os combates orientam nossos próximos passos.

Com relação ao fundo histórico presente em Son of Rome, os desenvolvedores da Crytek resolveram ter a liberdade artística de não serem fiéis a um determinado período, considerando melhor selecionar os eventos do antigo império romano preferidos e reuni-los de forma a deixar a experiência a mais divertida possível. Quanto aos lindos locais históricos retratados, a equipe de produção fez viagens para diversos pontos, para assim criar a ambientação mais precisa possível.

Curiosidade: No lançamento do Xbox One, em 2013, víamos frequentemente funcionários da Microsoft transportando as primeiras unidades do console paras as lojas fantasiados de gladiadores, fazendo clara alusão ao jogo Ryse: Son of Rome. Abaixo, vemos uma imagem que demonstra este grande evento que foi o lançamento do console.

Contexto Histórico e Enredo de Ryse: Son of Rome

Abaixo, vou descrever brevemente uma introdução para aqueles que ainda não jogaram Ryse: Son of Rome. As informações ajudam a esclarecer o momento histórico utilizado como pano de fundo para a obra, assim como descrever o início desta aventura. As informações são apenas complementares e não são spoilers capazes de prejudicar a experiência do jogador.

Os redatores do enredo de Ryse: Son of Rome tiveram uma enorme liberdade artística quando desenvolveram o jogo, de forma que em nenhum momento devemos levar em consideração os fatos, personagens e objetos como realísticos. Para se ter uma ideia, o imperador romano Nero morreu no ano 68 d.c, aos trinta anos de idade (totalmente diferente do idoso da imagem abaixo), assim como o próprio Coliseu sequer havia sido inaugurado durante seu governo, fato que ocorreu apenas em 80 d.c. Assim sendo, devemos apenas levar em consideração a ambientação do Império Romano, nada além disto.

Nero pressente o caos em um futuro próximo.

Caso venhamos a fazer algum esforço para localizar Ryse na linha do tempo, provavelmente este estaria localizado no início do Alto Império Romano, dentro do primeiro século de nosso calendário cristão; época em que Imperadores acumulavam poderes e tinham a liberdade de interferir em assuntos legislativos, militares e religiosos. Neste período, crises internas assolavam o território romano, grande parte devido ao comportamento despótico dos governantes.

O jogo começa em plena ação, com o protagonista Marius Tito liderando a defesa de Roma contra uma invasão de bárbaros celtas que já haviam conseguido romper os portões da cidade. Nosso personagem entrega um embrulho para um soldado e dá a ele a simples ordem: “Leve-o para um ponto alto para que seja exibido”. Após isto, parte à procura do Imperador Nero para mantê-lo a salvo em um local protegido.

Assim como de costume em jogos e filmes com esta temática, a vingança é um dos grandes motivadores para o início da aventura.

Marius, já junto de Nero, em um ambiente seguro, começa a contar ao imperador sua história e de como chegou até ali. Aqui o jogo começa a demonstrar a vida do protagonista a partir do momento em que o mesmo visita sua família para comemorar o final de seu treinamento e informar que foi aceito na Segunda Legião Romana, responsável por proteger a tranquila Alexandria. Ocorre que, como poderíamos imaginar, durante o feliz reencontro, Roma sofre um ataque surpresa feito pelos bárbaros e sua família vem a falecer. Consequentemente, o comandante Vitallion convida Marius a se juntar à Décima Quarta Legião, lhe prometendo sangue e vingança. Com o passar da aventura, o protagonista vem a se questionar se realmente os culpados dos males de seu povo são os estrangeiros ou os políticos corruptos de Roma.

Curiosidade: Na época do lançamento de Ryse: Son of Rome, a Microsoft liberou de forma online, gratuita, uma história em quadrinhos expandindo o enredo do jogo chamada de Sword of Damocles (espada de Damocles).

Análise Técnica

Primeiramente, vamos falar daquilo que salta aos olhos de todos aqueles que dão uma simples olhada em Ryse: Son of Rome: seus gráficos. Este título possui uma qualidade gráfica incrível, inclusive estando muito a frente de vários títulos já lançados em 2019. Chega a ser inacreditável que um dos mais belos jogos desta geração foi lançado em 2013, no lançamento do novo console. Os detalhes de todo o cenário estão fantásticos, assim como a animação de pessoas, árvores e águas. Personagens e objetos se movimentam de forma fluída, mesmo quando estão distantes do protagonista. É de encher os olhos o capricho dado ao visual.

A quantidade de detalhes animados durante o gameplay é incrível, como as batalhas vistas ao longe

O tempo de campanha é curto, cerca de 7 horas de gameplay quando terminado pela primeira vez. Isto caso morra algumas vezes próximo ao final da campanha e jogue aproveitando a experiência calmamente. A aventura possui oito capítulos e é extremamente linear, sendo que por algumas vezes nos fazem lembrar bastante dos bons beat’em ups dos anos 90. As performances cinematográficas dos atores nos guiam durante a aventura, que possui um bom enredo, podendo ser meio clichê e previsível em alguns momentos, mas que cai perfeitamente bem para um jogo desta temática.

Apesar do título ser considerado do gênero hack and slash, seus combates lembram muito mais os recentes jogos da franquia Batman do que God of War ou Devil May Cry. As movimentações são simples e não demora para o jogador começar a vencer os inimigos sem grandes dificuldades.

Uso de armas, como a balista, fazem o gameplay ser variado, indo além do simples massacre de inimigos com a espada.

O protagonista usa praticamente uma espada e um escudo durante toda a campanha e seus upgrades não alteram os combates de forma muito significativa. Aqui, o que devemos destacar são as maneiras de defesa, contra-ataque e finalização que utilizamos de forma estratégica. O famoso “esmagamento de botões” vai funcionar apenas nas primeiras fases do jogo, exigindo um pouco mais do jogador ao final do game, principalmente nas duas últimas etapas. O sucesso depende que o jogador entre no ritmo das batalhas, sabendo o momento exato (timing) de apertar cada botão. Os programadores chamaram este sistema de “Flow (fluxo) e ele é bastante funcional, deixando o gameplay divertido a longo prazo, apesar de um pouco repetitivo.

O outro destaque são as finalizações que fazemos em nossos adversários através do direcional digital. Além de serem muito bem animadas e violentas (dignas de se chamarem ‘fatalities’), possuem um fator estratégia indispensável para nosso sucesso no jogo. Durante sua execução podemos escolher 4 recompensas possíveis: 1) aumento de dano; 2) potencializar o ganho de experiência para distribuir em melhores status; 3) aumento da barra de foco (utilizada como especial durante as batalhas); e 4) recuperação de energia, uma vez que não há qualquer tipo de poção ou outra forma de regenerar sua barra de vida.

As finalizações, no melhor estilo ‘fatality’, dão um ótimo charme ao jogo.

Durante a campanha, utilizamos outras armas que contribuem para uma maior variedade de gameplay, como arpões e a balista (grandes arcos presos ao solo que podem disparar flechas com grande poder de impacto). Outros detalhes interessantes estão no fator estratégia levemente presente no título, como quando damos ordens para arqueiros dispararem ondas de flechas nos inimigos ou lideramos agrupamentos de soldados na formação conhecida popularmente como “tartaruga”. Além destes, há alguns momentos em que devemos escolher qual abordagem ter quando nos deparamos com a aproximação dos inimigos, como por exemplo, assumir o controle de uma balista ou ir de encontro ao inimigo.

A formação das legiões romanas, conhecida como “tartaruga”, está presentes no jogo e exige estratégia e precisão para sua liderança. Abaixo, vemos fotos destes momentos.

A dificuldade do jogo é baixa, sendo mais desafiador apenas próximo ao final da campanha, em que encontramos chefes que necessitam que conheçamos bem seus padrões e acertemos os ‘timings’ das batalhas. A linearidade presente em toda a campanha faz com que nossos passos sejam bastante intuitivos, exigindo uma breve exploração apenas para aqueles que buscam pelos colecionáveis.

O fator replay de Ryse: Son of Rome é baixo e a principal razão de alguém querer se manter jogando após terminá-lo está em seu multiplayer online, baseado no modo “Gladiator”, onde dois jogadores enfrentam hordas de inimigos em um Coliseu. Infelizmente, aqui nosso progresso é lento e ficamos tentados a utilizar as microtransações, infelizmente, presentes neste game.

À direita temos a “vida” de nossos companheiros durante a batalha e em frente ao protagonista vemos as torres trazendo inimigos para mais um grande combate épico.

A diversão do jogo é grande, principalmente para aqueles que curtem um título com um enredo cativante e a simplicidade de sair combatendo inimigos em sequência. Sem uma maior variedade de armamentos ou complexidade de upgrades, Ryse se torna uma experiência mais simples, mas não por isso menos valorizada que outros jogos do estilo.

A trilha sonora do jogo é boa e ajuda na ambientação do título, uma vez que remete a momentos de ação e clímax, assim como a calmaria e tristeza quando situações mais pessoais aparecem nas cenas de transição. Os efeitos sonoros também estão com alta qualidade, como das explosões e combates. A dublagem merece muitos elogios, inclusive a brasileira, sendo uma das melhores vistas nesta geração.

Abaixo, vemos todas as músicas que se encontram na trilha de Ryse: Son of Rome.

Curiosidade: Durante o lançamento do Xbox One surgiu um boato de que a Microsoft Studios havia feito um acordo com a Machinima Inc. para que as avaliações feitas dos primeiros jogos do console recebessem boas notas. Entre os jogos listados que estariam neste acordo, Ryse: Son of Rome era um deles. O rumor dizia que as avaliações positivas receberiam entre US$15.000,00 e US$30.000,00. Pessoalmente, não acredito que isto seja verdade, até mesmo porque nós sabemos que a crítica acabou fazendo exatamente o contrário, dando notas abaixo do que o título realmente merecia.

Inimigos mais fortes fazem os papéis de chefes em Ryse: Son of Rome.

Curiosidade: Segundo o diretor de criação, Cevat Yerli, Ryse: Son of Rome nasceu com o intuito de ser o primeiro episódio de uma franquia. Porém, acredita-se que sua sequência, Ryse 2, acabou sendo cancelada por desentendimentos entre a Microsoft e a Crytek. Segundo informações divulgadas na imprensa, a Microsoft queria assumir a propriedade intelectual da franquia em troca do financiamento do segundo título e que, devido ao fato da Crytek não concordar com esta situação, o projeto acabou sendo cancelado. Atualmente, a Crytek foca seus esforços no desenvolvimento de jogos ‘free-to-play’, decisão tomada após uma crise financeira que a empresa sofreu recentemente.

Conclusão
Ryse: Son of Rome certamente foi, intencionalmente, um bom título para a estreia do console, uma vez que mostrava claramente o poder gráfico que o videogame era capaz de reproduzir e incentivar os consumidores a trocar para uma plataforma de nova geração. Como dito durante a análise, o game se assemelha a um beat'm up muito bem lapidado para a atual geração e que provavelmente não receberá uma continuação, que poderia dar maior profundidade aos elementos de estratégia presentes no título. Por fim, queria dizer àqueles que ainda não o jogaram mas que possuem a oportunidade: Não percam esta chance; não cometam o mesmo erro que eu quase cometi.
Bom
  • Um dos melhores gráficos desta geração;
  • Trilha sonora épica;
  • Jogabilidade de fácil aprendizado;
  • Dificuldade acessível a todos.
Ruim
  • Campanha muito curta;
  • Enredo um pouco clichê;
  • Baixo fator replay.
8
Bom

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