Por André Eduardo Ruschel à Epic Play —

Geralmente procuro fazer minhas análises deixando de lado o fator nostalgia, mas neste caso ficou difícil. Sonic de Master System veio na memória de meu primeiro console e foi o único jogo que tive por algum tempo. Foram muitas tardes jogando com família e amigos, não sendo nenhum exagero dizer que aprendi a gostar de videogames por causa dele. Certamente um ótimo jogo que, sabiamente, foi portado de forma original para o console 8 bits da SEGA e que ficou guardado na memória de muitos brasileiros como um de seus primeiros games da infância.

Dr. Eggman em 8 bits: também dava trabalho.

Sonic the Hedgehog é um jogo de plataforma lançado em outubro de 1991 para Master System, recebendo uma versão, com várias mudanças, para Game Gear em dezembro de 1991. Desenvolvido pela Ancient e distribuído pela SEGA, foi inicialmente lançado em cartucho, sendo incluído na memória do console, posteriormente, em versões comercializadas no Brasil e Europa. Em 2008, esta versão foi relançada no Virtual Console do Wii.

Curiosidade: Por incrível que pareça, algumas pessoas ainda acreditam que Sonic surgiu primeiramente no Master System e não no Mega Drive. A versão de Master foi encomendada exatamente devido ao grande sucesso que a de Mega obteve quase imediatamente após o lançamento. Porém, na verdade, o personagem Sonic ainda teve uma aparição anterior ao primeiro jogo do console de 16 bits da SEGA. Foi no título para arcades, também de 1991, chamado Rad Mobile, em que o herói está como um chaveiro. Posteriormente, este game foi portado para Sega Saturn e talvez ainda façamos uma análise sobre ele futuramente.

Rad Mobile, a verdadeira primeira aparição de Sonic.

Enredo de Sonic the Hedgehog

A aventura de Sonic se passa na Ilha do Sul, lugar muito pacífico e com uma rica fauna e flora. Tudo ia bem até o dia em que um ambicioso cientista, Dr. Eggman, ficou sabendo que lá estavam as lendárias Esmeraldas do Caos, joias mágicas fonte de uma energia incalculável.

Ao chegar na misteriosa ilha, Eggman começa a capturar os animais da região e prendê-los dentro de seus robôs, criando, assim, seu exército, os Badniks, para que juntos encontrem as poderosas esmeraldas e começar os planos de dominar o mundo. Ao saber o que estava ocorrendo na Ilha do Sul, Sonic parte para arruinar os planos do doutor louco, libertar seus amigos e restabelecer a paz.

Jogar ‘dentro’ da Green Hill, em seu segundo ato, foi uma sacada muito boa.

Curiosidade: O Master System não teve muito sucesso no Japão e nos Estados Unidos, por isso Sonic The Hedgehog foi o último jogo lançado para o console nos EUA e sequer foi distribuído no mercado japonês. Sorte dos americanos que tiveram contato com este grande título e pena dos japoneses que, apesar de terem feito este grande game, não tiveram o prazer de jogá-lo.

As Fases de Sonic the Hedgehog para Master System

Em Sonic the Hedgehog para Master System, temos 6 fases com 3 atos cada, assim como no Mega Drive, sendo que no terceiro ato de cada fase há nosso confronto com o vilão da franquia, Dr. Eggman. Nestes combates contra os chefes temos um fator diferente: nestes atos não existem anéis para serem coletados, o que faz destas batalhas mais difíceis, em regra, do que as do console 16 bits.

Algumas fases possuem a mesma temática da versão de Mega Drive, como ambas possuírem uma Green Hill Zone, apesar de seu level design estar completamente diferente. Outras são totalmente inéditas, como o caso de Bridge e Jungle Zone, todas muito divertidas.

  • Green Hill Zone: A mais clássica fase da franquia Sonic está aqui, sendo bastante rápida em seu primeiro ato e de exploração no segundo. Foi uma sacada muito boa jogarmos abaixo da Green Hill no segundo ato desta primeira fase. Curiosamente, Sonic Mania fez algo semelhante muitos anos depois. Um destaque, que poucos sabem, é que nesta fase se encontra o único ‘power sneakers’ (tênis que dá velocidade) presente em todo o jogo.

A típica primeira fase dos jogos do Sonic: rápida e divertida.

  • Bridge Zone: Fase 100% inédita e que já nos faz lembrar porque o gênero de Sonic é chamado plataforma. Muitos pulos certeiros são necessários e pontes quebradiças devem ser evitadas. Um destaque para a clássica música desta fase que, futuramente, a própria SEGA reaproveitou no tema de Tails (“Believe in Myself”) em Sonic Adventure. Um destaque, inédito aqui, fica para o segundo ato que possui ‘auto scroll’, situação em que a tela anda automaticamente, ditando a velocidade de passagem de fase.

Nesta segunda fase já vemos porque Sonic é um jogo de plataforma: um pulo errado e já era.

  • Jungle Zone: Uma das fases mais bonitas entre os jogos do Sonic em 8 bits, também não possui correspondente na versão Mega Drive. Cheia de detalhes, se passa em uma mata, com bastante água, correnteza e variação de inimigos. Aqui o segundo ato também merece elogios, sendo uma fase vertical, bastante original, em que devemos subir a cachoeira até seu topo, e caso erremos os pulos, é morte.

Talvez a mais bela fase do jogo. Devemos controlar nossa velocidade.

  • Labyrinth Zone: É típico das fases do Sonic haver uma etapa sob o nível da água. Apesar de possuir o mesmo nome que a fase aquática de Sonic 1 do Mega Drive, seu level design é completamente diferente. É típico nestes atos haver a falta de ar e a nossa procura por bolhas, porém, no terceiro ato, apesar do personagem passar todo tempo dentro d’água, não necessitamos de oxigênio extra, sendo um daqueles momentos em que o jogo faz a opção da diversão de gameplay no lugar do realismo e regras impostas anteriormente.

As esmeraldas neste jogo estão espalhadas pelas fases. Encontrá-las é muito divertido. Não vá procurar guias, hein!

  • Scrap Brain Zone: Já invadimos a base do Dr. Eggman na quinta fase do Sonic 1 de Master. Aqui o primeiro ato é bastante simples, porém o segundo é um labirinto fácil de se perder e difícil de encontrar a esmeralda. Etapa muito bem feita.

Voltou da versão de Mega Drive tão aterrorizante quanto.

  • Sky Base Zone: Fase original que realmente mostra a perseguição do Sonic até o encontro final com Dr. Eggman. No primeiro ato temos raios que fazem belos efeitos de luz na fase. No segundo, não há nenhum ‘ring’ para nos ajudar a chegar até o fim, mostrando a maior dificuldade que o jogo possui quando comparado com sua versão de origem.

Os efeitos dos trovões realmente impressionam para um console 8 bits. Memorável.

  • Special Stage: Caso termine os primeiros atos das fases possuindo entre 50 e 99 anéis, você irá para a fase de bônus. Diferente da versão de Mega Drive, aqui o objetivo não é pegar a esmeralda, mas sim os continues. As fases possuem a temática dos pinballs, cheios de molas e rebatedores. São muito divertidos, mas infelizmente não retornaram na sequência de Sonic para Master system.

Fase de bônus muito divertida. Infelizmente não voltou em Sonic 2 para Master System..

Curiosidade: Há alguns anos, hackers encontraram dentro da rom de Sonic 1 para Master System uma versão 8 bits da trilha da fase Marble Zone, existente na versão de Mega Drive. Ou seja, em algum momento da produção do jogo foi aprovada a possibilidade de se ter esta fase, porém, descartaram esta possibilidade posteriormente. Abaixo vemos a versão da música.

Análise Técnica

Os gráficos de Sonic the Hedgehog, apesar de simples em uma primeira vista, estão muito a frente do padrão dos jogos de Master System, sendo muito coloridos, cheios de detalhes nos cenários e conseguindo manter a velocidade do personagem de forma fluida, principal característica da franquia. Destaque para a fase Jungle Zone com suas cachoeiras e troncos flutuantes.

A introdução do mapa foi bastante interessante. Realmente passamos por lugares semelhantes aos vistos aqui.

A jogabilidade de Sonic é ótima, seguindo a regra dos games da série, com a típica simplicidade que nos permite dar grandes pulos e atingir uma alta velocidade rapidamente. Em raros momentos, temos slowdowns que conseguem interferir no gameplay. Aqui destaco a fase Bridge Zone, em que, devido ao fato de muitos objetos mexerem-se simultaneamente na tela, isto acaba acontecendo.

O jogo trouxe algumas novidades quando comparado com sua versão 16 bits. Antes do começo de cada fase temos uma visão do mapa da Ilha do Sul e a localização exata de onde estamos e para onde iremos durante o próximo ato. Pode parecer pouco, mas detalhes como este ajudam na ambientação. As esmeraldas, aqui, não se encontram dentro das fases de bônus, mas sim, escondidas pelos primeiros atos das fases. Isto acrescentou um fator exploração até então inexplorado pela franquia que, para muitos, assim como eu, acharam que ficou ótimo. Neste jogo, as fases de bônus passaram a ser o local em que procuramos pelos continues.

Cavernas na Green Hill. Aparentemente inspirou o recente Sonic Mania.

A dificuldade do jogo é baixa. Apesar disto, ainda é maior que a de Sonic 1 de Mega Drive. Nesta versão, caso percamos os anéis, ficamos impossibilitados de recuperá-los, assim como os atos 3 de cada fase, nos quais lutamos contra Eggman, estão totalmente desprovidos de anéis, o que aumenta bastante a tensão dos confrontos. Curiosamente, neste jogo há a possibilidade de levarmos nosso escudo de proteção para o ato seguinte, detalhe que só foi surgir no Sonic 3 de Mega Drive.

O tempo de campanha é difícil mensurar, pois, provavelmente, o jogador irá receber alguns “game over” antes de conseguir terminar o jogo pela primeira vez. Após ter o domínio dos locais das esmeraldas e conhecer os padrões dos inimigos e chefes, será possível chegar ao “the end” em menos de 50 minutos sem maiores dificuldades.

Pontes caindo. Gerador de lentidões no jogo .

A diversão é enorme, não sendo difícil encontrar pessoas que consideram esta versão 8 bits de Sonic the Hedgehog mais divertido que sua fonte de inspiração do Mega Drive. Detalhes como a necessidade de explorar os cenários para encontrarmos as esmeraldas, dificuldade um pouco maior e fases inéditas, extremamente carismáticas, como a Jungle e a Bridge Zone, fizeram deste mais um clássico do Master System.

Pequenos quebra-cabeças aparecem nas fases.

O fator replay do jogo se dá pela busca das esmeraldas escondidas e de difícil acesso, uma vez que certamente você não irá conseguir coletar todas em sua primeira partida, exceto se estiver com um guia, o que não recomendamos. Além disto, o título é tão divertido que, caso seja do gosto de jogador games do gênero plataforma, provavelmente outras partidas de Sonic the Hedgehog virão em um futuro não muito distante.

Em muitas vezes o jogo faz a opção da diversão pelo realismo. Nesta batalha contra Eggman não nos preocupamos com a falta de ar.

As músicas estão fantásticas, sendo que apenas a Green Hill Zone foi adaptada da versão de Mega Drive. Não é para menos: as trilhas foram compostas por Yuzo Koshiro, um dos maiores compositores que já trabalhou para a SEGA. Em seu currículo temos ‘soundtracks’ incríveis, como as dos jogos: Streets of Rage, The Revenge of Shinobi e Shenmue. Algumas destas músicas foram aproveitadas, sendo remixadas em outros jogos da franquia Sonic e, até mesmo, servindo de base em faixas de artistas famosos, como no caso de Janet Jackson.

Abaixo temos a trilha sonora completa de Sonic de Master System.

Curiosidade: Alguns anos após o lançamento de Sonic Tthe Hedgehog para Master System, a cantora americana Janet Jackson, utilizou os samples musicais da fase Bridge Zone em sua música ‘Together Again’. Abaixo temos os trechos das músicas que demonstram isto.

Bestiário

Temos uma boa variedade de inimigos neste Sonic 1 do Master System, e aqui iremos abordar 5 deles. Vale dizer que as zonas do jogo costumam ter seus inimigos típicos da região. Os chefes são variações de batalhas contra o Dr. Eggman, então não irei esclarecer detalhes sobre eles para evitar maiores spoilers.

  • Moto Bug: Chamado de pulga mecânica pelo manual da Tec Toy, é o primeiro inimigo que encontramos no jogo, diferentemente de sua versão de Mega Drive, aqui ele está muito menor, sendo mais difícil de ser atingido e, por esta razão, mais perigoso.

Moto Bug.

  • Buzz Bomber: É a vespa mortífera, inimigo clássico do Sonic. Dispara uma bola de energia em nossa direção quando ficamos próximos a eles. Possuem um comportamento fácil de ser decorado e não apresenta maiores preocupações para os jogadores experientes.

Buzz Bomber.

  • Caterkiller: A centopeia assassina. Inimigo chato que costuma nos fazer desacelerar quando o encontramos. Seu único ponto fraco é a cabeça, por isto, recomendamos se seja combatido através do ‘spin’ e não pulando sobre ele.

Caterkiller.

  • Ball Hog: Inimigo que surge mais próximo do fim da campanha. Dispara bolas de energia que ficam pulando pelo cenário e nos atingem com certa facilidade.

Ball Hog.

  • Newtron: Inimigo que possui a capacidade de tornar-se camuflado, invisível, por alguns momentos antes de nos atacar com uma bola de energia. Depois que aprendemos as localizações dos Newtrons, eles deixam de ser um problema.

Newtron.

Curiosidade: O manual do jogo possui alguns erros em seu bestiário, informando que há o inimigo Roller, quando ele não se encontra neste jogo, assim como ignorar a presença de outros, como o Orbinaut, que está no game e não está listado.

Não é só a Labyrinth Zone que parece um labirinto, e olha que este é o terceiro ato da fase.

Curiosidade: Quem viveu os anos 90 deve lembrar dos comerciais que passavam sobre videogames entre os desenhos animados. Abaixo vemos o anúncio do Master System 3 Compact, que já vinha com Sonic the Hedgehog em sua memória. Bons tempos aqueles.

Jogado no Master System.

Conclusão
Infelizmente, vários dos melhores jogos lançados para Master System chegaram ao mercado após os consoles da quarta geração, Mega e Snes, estarem consolidados, sendo Sonic 1 de Master um destes títulos. Isto acabou fazendo com que muitos destes games ficassem na obscuridade nos grandes mercados e impopulares entre os gamers. Nós, brasileiros, tivemos o privilégio de conhecer várias destas pérolas que são consideradas raridades lá fora, em grande parte graças à Tec Toy, mas também à SEGA que via no público dos países em desenvolvimento um mercado disposto a consumir estes jogos. Por fim, obrigado à SEGA e à Tec Toy que nos permitiram jogar títulos de qualidade com um preço mais compatível com nossa realidade dos anos 90.
Bom
  • Ótima trilha sonora, digna da franquia;
  • Ser um jogo original, diferente da versão homônima do Mega Drive;
  • Possuir um sistema de exploração de busca pelas esmeraldas.
Ruim
  • Presença de slowdowns em alguns momentos.
9
Incrível

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