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Por André Eduardo Ruschel em janeiro de 2019

Muita vezes, o cinema e os games ignoram a Primeira Grande Guerra. Talvez pelas dimensões, fatos ou ícones que a Segunda Guerra teve, esta última acaba sendo muito mais valorizada. A Ubisoft resolveu andar contra esta maré e trouxe mais um daqueles jogos dignos de serem chamados de obra de arte. Ensinando história de forma cartunesca e emotiva, nos fez lembrar que os videogames deixaram de ser comparados com brinquedos há muitos anos.

O cachorro nos ajuda constantemente em diversos momentos da campanha.

Valiant Hearts: The Great War é um jogo 2D do gênero puzzle-adventure, desenvolvido pelo estúdio Ubisoft Montpellier e publicado pela Ubisoft. Lançado inicialmente para Windows, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360 e Xbox One em junho de 2014, foi portado no mesmo ano para Android e iOS. Por fim, recentemente, em novembro de 2018 recebeu uma versão para Switch.

Abaixo, segue o trailer legendado de Valiant Hearts.

Bastidores de Valiant Hearts

O diretor de Valiant Hearts, Yoan Fanise.

Após a criação de Assassin’s Creed III, Yoan Fanise começou a fazer um projeto que queria realizar há algum tempo. Tratava-se de algo menor, feito por uma equipe pequena, que pudesse ter acesso constante aos membros de seu time de produção e que fosse baseado em fatos reais.

A ideia de se tratar da Primeira Guerra mundial não foi algo tão difícil, já que os membros de sua equipe de produção possuíam histórias de suas famílias que acreditavam cair bem em um jogo estilo “obra de arte”, como o que gostariam de fazer. A partir daí, tudo começou. Uma história verídica com o objetivo de mexer com as emoções daqueles que o jogavam, dando um grande foco ao amor, amizade e família.

Durante o jogo, temos acesso a cartas reais da época que os soldados enviavam para seus familiares com o principal objetivos de tranquilizá-los. Entre elas estão, até mesmo, as do bisavô de Yoan Fanise, Felix Chazal, que durante a guerra foi atingido duas vezes e retornou para casa sem suas duas pernas.

Apesar de envolver mais raciocínio que habilidade, chefes estão presentes no jogo.

Um dos maiores destaques da produção foram as fotos originais do campo de batalha e objetos da trincheira. Isto, inclusive, foi bastante criticado por parte da imprensa, que os considerava intrusivos. Os programadores, por outro lado, acreditaram que foram estes detalhes que motivaram as pessoas a ler e aprender história. Segundo Yoan, o retorno foi bastante positivo, dizendo: “As pessoas entenderam que isto enriqueceu muito o jogo. Muita gente inclusive nos disse que aprendeu mais sobre a Primeira Guerra em Valiant Hearts do que em suas escolas”.

Antecedentes dos fatos e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Muitas vezes, é difícil explicar por que gostamos de algo; sentir é mais fácil que dizer. Porém, no caso de Valiant Hearts, acredito que uma das razões pelas quais admirei a obra seja o fato de gostar de história. Por este motivo, colocarei aqui uma breve introdução, acreditando que, assim, aqueles que ainda não jogaram esta maravilha terão melhores condições de aproveitar esta experiência, uma vez que os fatos a seguir compreendem a ambientação em que o jogo se encontra.

Entre os anos de 1871 e 1914, a humanidade presenciou uma das fases de maior prosperidade, evolução tecnológica e cultural. Inventos como telefone, automóvel, avião, lâmpada incandescente comercializável e até mesmo o Titanic foram inseridos em nossa sociedade neste período, chamado de ‘belle époque’. Um clima de incertezas, com uma péssima distribuição destas riquezas, e países inconformados por não participarem de grandes decisões e tensões antigas entre nações, pairava no ar. Todos pensavam como a próxima guerra seria, já que se todas estas inovações estavam disponíveis aos olhos dos civis, imaginem o que os militares estavam criando para destruir. Assim como as pessoas fazem amizades quando se sentem ameaçadas, os países fizeram alianças.

Fatos históricos estão disponíveis para entendermos perfeitamente o contexto em que o enredo se encontra.

De um lado tínhamos a Tríplice Aliança formada, em 1882, pelos países: Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália, todos descontentes com as expansões econômicas e coloniais de seus adversários. Do outro lado, havia a Tríplice Entente formada, em 1907, pelos países: Rússia, Reino Unido e França, países que queriam seguir com seu domínio global e mantinham desavenças recentes com os membros da Aliança.

Com tudo pronto para a guerra, faltava apenas uma simples fagulha para fazer explodir o barril de pólvora em que o continente europeu havia se tornado. O motivo do conflito começar se deu quando, em 28 de junho de 1914, um estudante sérvio assassinou a tiros o herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando. Consequentemente, a Áustria culpou a Sérvia, que tinha apoio da Rússia. A Alemanha declarou guerra contra a Rússia, devido à sua aliança com a Áustria. Em seguida, a Alemanha declara guerra contra a França e invade o território belga. A violação da neutralidade belga acaba sendo o motivo para a Inglaterra entrar no conflito que, posteriormente, atingiria proporções globais, com o ingresso de países como Estados Unidos, Brasil e Japão.

Francisco Ferdinando muitas vezes é traduzido como Francisco Fernando. Ambas as formas estão corretas.

O objetivo do governo alemão era derrotar a França rapidamente para concentrar seu foco na batalha contra a Rússia, porém, o avanço da Alemanha foi barrado na batalha do Rio Marne, ainda em 1914, pelas trincheiras francesas. Estas formas de defesa seriam abrigos cavados na terra e protegidos com arames farpados, praticamente impossíveis de serem transponíveis por infantarias simples. Este cenário praticamente gerou o símbolo do que seria A Grande Guerra.

O formato de guerra com as tropas fixas no solo teve este cenário até 1916, momento em que tanques e aviões passaram a ser utilizados em grande escala nos campos de batalha e puderam sobrepujar estas defesas facilmente, permitindo, assim, que a infantaria pudesse invadir o território adversário.

O ano de 1917 trouxe grandes mudanças para o conflito, como a saída da Rússia, devido a conflitos internos, e a entrada dos Estados Unidos. Devido a somadas campanhas mal sucedidas e uma grande miséria vivida pelo povo alemão, a Alemanha vem a render-se em 1918, ocasionando o fim da guerra. Estes últimos eventos não são retratados em Valiant Hearts.

Objetos reais do período são encontrados como colecionáveis durante o jogo.

Na época chamada apenas de A Grande Guerra (conforme o subtítulo do jogo), dizia-se que este seria um confronto de tamanhas proporções que viria a ser “a guerra que iria acabar com todas as guerras”. Infelizmente, como sabemos, isto não ocorreu como as pessoas imaginavam, e um conflito ainda maior iria começar 25 anos depois, mas isto é assunto para outro jogo e uma outra análise.

Abaixo, seguem imagens das trincheiras, símbolos da Primeira Guerra Mundial.

Para se ter uma ideia de como era o dia-a-dia em uma trincheira, irei citar aqui as palavras de um soldado veterano da Primeira Grande Guerra: “O campo de batalha é terrível. Há um cheiro de azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro estão meio afundados no pântano e nos campos de nabos em crescimento. As pernas de um soldado inglês, ainda envoltas em polainas, irrompem de uma trincheira, o corpo está empilhado com outros; um soldado apoia o seu rifle sobre eles. Um pequeno veio de água corre através da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível. No cemitério de Langermark, os restos de uma matança foram empilhados e os mortos ficaram acima do nível do chão. As bombas alemãs, caindo sobre o cemitério, provocaram uma horrível ressurreição. Num determinado momento, eu vi 22 cavalos mortos, ainda com os arreios. Gado e porcos jaziam em cima, meio apodrecidos”. (Fonte: Rudolf Binding, Um fatalista na guerra, ed. São Paulo, 1994, p.119).

Curiosidade 1: A Ubisoft Brasil, além de traduzir o jogo para o nosso português brasileiro, também acrescentou textos explicando a participação de nosso país no conflito e as consequências que a guerra gerou aqui, como impactos econômicos e sociais.

Enredo e narrativa de Valiant Hearts

Em Valiant Hearts, jogamos controlando 4 personagens principais que estão na guerra em diferentes posições. Anna é uma enfermeira voluntária belga que está em campo com o único objetivo de salvar vidas, independente da origem do enfermo; Freddie é um americano voluntário no exército francês que vê nas batalhas a chance de resolver um problema de seu passado; Karl, um imigrante alemão que vive na França com sua esposa e filho recém nascido, sendo convocado pelo seu país de origem e obrigado a lutar contra a terra em que vivem as pessoas que ama; e por fim, temos Emile, sogro de Karl, que serve ao exército francês.

A narrativa, sem diálogos falados, além do narrador, utilizou o recurso de imagens em quadrinhos, de forma a expor uma linguagem universal para todos os personagens. Isto colaborou para a atmosfera simples e fria que uma guerra possui, além de aumentar a emoção em cena.

A narrativa através de balões, sem palavras, foi muito boa.

Além das histórias individuais dos protagonistas, também temos acesso a itens colecionáveis encontrados pelo cenário. Estes objetos reais são mais de 100 ao todo e, assim como as cartas, hoje são considerados, por muitos, como artes das trincheiras. As criações eram incentivadas para manter a motivação das tropas e, até mesmo, serem vendidas quando os soldados chegassem nas cidades.

No início de cada capítulo, novas páginas do diário e dos fatos históricos são acrescentados para que leiamos. Apesar de não serem obrigatórios eu recomendo bastante, não somente para uma melhor compreensão do enredo, mas também para se ter uma melhor imersão no gameplay. Assim, caso no início de uma fase “estudarmos” que em determinado momento os alemães usaram pela primeira vez o lança-chamas ou gás, já podemos saber o que estará nos esperando naquela etapa.

Seria esta uma referência ao famoso piloto alemão Barão Vermelho? Provavelmente.

Com nenhum dos personagens chegamos a matar inimigos. Ainda assim, temos contatos com cadáveres e feridos graves o tempo todo. Isto tudo nos ajuda a pensar que não há um lado bom ou ruim entre os combatentes, apenas a vontade que a guerra acabe e que possam voltar para casa o quanto antes.

Curiosidade 2: Originalmente, Valiant Hearts não teria apenas 4 protagonistas, mas 5. O quinto personagem seria um aviador inglês chamado George, que teria a necessidade de mentir para conseguir ter acesso ao campo de batalha.

Análise Técnica de Valiant Hearts

O gameplay de Valiant Hearts é bastante simples, sendo um pouco de plataforma, furtividade e muito de quebra-cabeças. Estes últimos são bastante fáceis em sua maioria e caso, ainda assim, você tenha maiores dificuldades, um aviso de dicas aparece para termos acesso e não ficarmos “presos” durante a campanha. Entre os quatro capítulos presentes no jogo, teremos as fases em que pilotamos automóveis, sendo que aqui devemos evitar os obstáculos o máximo possível, impedindo assim que nosso carro exploda. Nestes momentos, as trilhas sonoras são maravilhosas e os obstáculos surgem no ritmo da canção. Simplesmente genial.

O jogo ainda possui alguns chefes, mas na prática são quebra-cabeças disfarçados que apenas devemos resolvê-los antes de nossa morte, exigindo um mínimo de habilidade por parte do jogador. Os checkpoints, em toda partida, são bastante próximos, o que também evita frustrações.

Jogando com a enfermeira Anna, temos momentos ‘quick time events’, em que comandos são informados em determinada ordem para que tudo ocorra perfeitamente, sendo uma espécie de “Guitar Hero de medicina”. Isto é divertido e ajuda a acrescentar para a atmosfera do jogo. O personagem Emile possui como característica própria uma pá, cavando em trechos do cenário. A marca da jogabilidade de Freedie está em cortar arames farpados, enquanto com Karl temos alguns breves momentos de furtividade. Não podemos esquecer do cachorro Walt que inúmeras vezes nos ajuda na resolução de quebra-cabeças e não julga as pessoas que socorre pelo uniforme que utilizam.

Sem dúvidas, os quebra-cabeças são a principal marca do gameplay de Valiant Hearts.

A campanha do jogo é bastante curta, composta de quatro capítulos, levando menos de cinco horas para chegarmos ao seu final quando jogamos pela primeira vez, estendendo um pouco caso queiramos encontrar os colecionáveis presentes nos cenários. A dificuldade é bastante fácil, até mesmo para os padrões dos jogos de hoje em dia. Tudo o que devemos fazer é bastante intuitivo e caso, ainda assim, tenhamos problemas, dicas começam a aparecer para nos ajudar.

Os momentos do táxi são os de maior ação e com ótimas trilhas sonoras.

Apesar de ser um jogo da Ubisoft, toda a parte gráfica seguiu um estilo cartunesco simples, que apesar de funcionar perfeitamente bem e ajudar na ambientação do jogo, não corresponde ao potencial da oitava geração. Isto de certa forma também ajudou crianças a terem acesso a estas informações “pesadas” de uma forma “leve”. Por exemplo, em determinado momento, Anna chega a realizar uma amputação. Apesar de todos sabermos o que estava acontecendo e como algo assim pode ser traumatizante, o jogo conseguiu abordar de tal maneira que os mais jovens apenas estariam vendo o ferido ser curado.

Quick time events aparecem nos momentos de cura do jogo.

Depois da narrativa, provavelmente o maior destaque de Valiant Hearts seja sua trilha sonora. Composta e adaptada por Ian Livingtone e Peter McConnell, trata-se de uma mistura de música clássica, jazz e ‘chanson française instrumental’, onde tudo é lindo e encaixa perfeitamente no contexto em que os personagens se encontram em determinado momento. Aqui, faço um pequeno destaque para a fase em que dirigimos um táxi enquanto estamos sendo alvo de um zepelim, isto ao som da clássica música cancã. Ficou incrível.

Abaixo, segue a incrível trilha sonora de Valiant Hearts.

Nossa Conclusão

A Ubisoft, reconhecida pelos jogos de grande orçamento, como Assassin’s Creed, Watch Dogs e Far Cry, aqui tentou algo diferente, demonstrando que narrativa pode ficar à frente de belos gráficos e campanhas duradouras. Valiant Hearts mostrou que a empresa que todos conhecemos pode produzir algo com qualidade, acessível e nos fazer aprender sobre o mundo em que vivemos. Espero que esta gigante dos games olhe para este recente legado e valorize aqueles que tentaram algo novo e de qualidade, e que o futuro dos games tragam mais experiências do nível desta que tivemos o prazer de escrever.

Controlamos veículos em alguns momentos do jogo.

Avaliação: 8.5

Jogado na versão de Xbox One

8.5
Bom

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